quarta-feira, 4 de abril de 2012

Assimetria ao Caminhar, o coxo e a marca do outro mundo


Assimetria ao Caminhar, o coxo e a marca do outro mundo:
Dos Kallikantzaroi aos Sacís e de Hefesto á Édipo

“Não existem povos, por mais primitivos que sejam, sem religião e magia. Assim como não existem, diga-se de passagem, quaisquer raças selvagens que não possuam atitude científica ou ciência, embora esta falha lhes seja freqüentemente imputada”
Magia, ciência e religião, 1988:19

Eu tinha como meta publicar ao menos um texto por semana neste blog - afinal não o utilizo apenas como canal de promoção de trabalhos em diferentes vertentes de atuação profissional.Quase nunca sou bem sucedido nesta meta, na real sou meio "claudicante para com isto (rsssss) - afinal a minha vida tem diversas priorídades que lídam diretamente com aspectos de poder viver como sinto que devo viver.E como só escrevo sobre o que vivêncio...já viu né.Tudo depende inicialmente de certa inspiração...
Inspiração vem do spiritus latino ou grego, vêm sabe-se lá de onde, organiza e ordena memórias, imaginário, teorias, estudos, artes, sentidos e coisas que ouvimos de orelhada e nos arrastam para o que Salvador Dali chamava de gavetões do grande armário, que para ele representava o inconsciente.Há algumas semelhanças de práticas espirituais entre Dalí e o magista inglês Austin Osman Spare (velho conviva de meu trabalho!) que explorarei futuramente nos textos daqui (ambos reíficavam o sublime na realidade através da arte)...mas de volta á inspiração - o que torna bem interessante para se pensar onde começa cultura ou onde se explora a espiritualidade - esta última passa bem longe dos dogmatismos e confusões de melíndres próprios que predominam em suas abordagens nas massas, onde aparentemente qualquer feito "sobrenatural"(se é lá que existe, algo além da natureza!) ou possesão simplesmente erradica a necessidade de algo mais "sábio" ou que atréle o tom vivêncial e o mistério que é viver instante a instante.Justamente por apreciar o ato de "caçar" e de "viver" compartilho algumas ilustrações e um diálogo intertextual que inspiraram tais criações visuais.
Na madrugada da última terça 3 de Abril de 2012, depois de concluir um extenso ensaio sobre Stadhagaldr e alfabetos de poder, executei esta ilustração digital inspirada nos textos da amiga Katy Frisvold e fragmentos de um artigo do Marcos Torrigo (ainda não concluído).A temática do coxo, do manco, das marcas nos pés - instintivamente me remeteu a alguns conteúdos que publiquei no site oficial do Círculo Strigoi e que compartilho aqui, amplamente inspirados em um estudo que desenvolví ao lado da querida Soraya Mariani.O desfecho deste diálogo sincrônico e imaginário se dá na obra de Robert Graves pautada em mitos do antigo mediterrâneo.Boa jornada e boa páscoa!

1.Segundo Katy Frisvold no texto As Bruxas de Vera Cruz:(...) ou do Saci, que entre os índios era uma pequena coruja que representava a alma de algum maldoso pajé, que não satisfeito em fazer maldades na terra, piava, trazendo maus agouros aos que lhe caem em desgraça. Mais tarde este mito se misturou ao imaginário do negro e europeu, fazendo do Saci um personagem parecido com um duende: um menino negro perneta vestindo um gorro mágico vermelho na cabeça, fumando um cachimbo.(...)citando a obra de  Afonso Arinos – Pelo Sertão, Histórias e paisagens. Rio de Janeiro, 1898.(...)No folclore brasileiro, onde exemplos abundam, encontramos a figura do Saci-Pererê, como foi popularizada pelo escritor paulista Monteiro Lobato em “Sítio do Pica-pau Amarelo”. O Saci é uma espécie de duende brasileiro: assim como os Pixies ingleses, é perigoso encontrá-los nas florestas. Embora não usem luzes como seus pares ingleses, assoviam ou fazem redemoinhos no ar, atordoando os humanos que lhe cruzam o caminho. Exatamente como os Pixies, eles também gostam de tomar emprestado cavalos, trazendo-os pela manhã exaustos, suados e com as crinas trançadas. As lendas que correm do Amazonas ao Rio Grande do Sul o descrevem como um pequeno menino negro, de uma só perna, vestindo uma tanga (às vezes nu) e um pequeno barrete vermelho, onde portaria sua magia. O viajante que cruza seu caminho, quando o avista, pode chamar-lhe pelo nome, e é isto que o faz desaparecer com uma grande gargalhada.
Originalmente “saci” é uma espécie de coruja pequena, que faz repetir o som que lhe deu o nome durante as noites. Os índios o viam como um pássaro agourento, pois estas corujas eram as representações das almas dos “maus pajés”, que através dos seus gritos, anunciavam desgraças àqueles a quem desaprovavam.Até aqui reparamos a fusão das mitologias indígena e européia, e a explicação de sua aparência e comportamento pode ser encontrada nos mitos africanos: na lenda de Osanyin, Orixá das ervas medicinais, onde encontramos a figura de Aroni, um auxiliar e mensageiro de Osanyin. Ele é um anão, e de acordo com os relatos obtidos na África, a cada período de anos ele ‘seqüestra’ uma criança de cerca de 8 ou 9 anos de idade, levando-o para a floresta para aprender a Arte com o próprio Osanyin, seu mestre. Esta criança retorna à família já moço, com cerca de 18 ou 19 anos de idade, portando o conhecimento do uso das ervas medicinais. Existem relatos de que estes jovens possuem o conhecimento de mais de 10.000 diferentes ervas. O saci brasileiro então possui a “maldade” do antigo saci indígena, a aparência de Aroni, o comportamento do Pixie inglês e os poderes mágicos das três lendas em seu pequeno chapéu vermelho(...)Confiram as quatro partes deste artigo chamado "As Bruxas de Vera Cruz" no blog da autora. 

2.Segundo o pesquisador Marcos Torrigo em seu ensaio (ainda não concluído): Um mito pode sofrer muitas transformações e acréscimos, perder ou ganhar significados , um exemplo é a história de Édipo.Personagens com problemas nos pés são encontradas nas mitologias de vários povos, o nome Édipo significa pé inchado.Devido à maldição profetizada por Delfos de ser morto pelo seu próprio filho, Laio, Rei de Tebas, furou os pés do filho e abandonou o recém nascido no monte Citeron A criança foi encontrada por um pastor que a entregou a Polibo, Rei de Corinto, que o criou como seu filho.
Muitos anos depois Édipo, já um jovem, vai a Delfos onde a pitonisa o escorraça dizendo -saia desgraçado, você vai matar seu pai e se casar com a sua mãe. Ele não retorna a Corinto para fugir da profecia, mas ao fazê-lo justamente faz com que ela se realize ao matar um desconhecido em uma briga na estrada, o desconhecido era Laio.Na sua jornada Édipo encontra a esfinge que está assolando Tebas devorando as pessoas que não desvendam uma charada: Qual o ser, com apenas uma voz , tem por vezes dois pés, por vezes três, e por vezes quatro, e quanto mais tem, mais fraco é? Édipo adivinha a resposta, a esfinge se mata,  e põem  fim a maldição. Com isso ele é recebido como herói e casa-se com a viúva, sua mãe Jocasta.A narrativa trás elementos que remetem possivelmente há uma matriz mítica (iniciática) mais antiga onde o herói desce ao reino dos mortos e retorna.  O ferimento infligido aos pés é parte de um rito que se destina a promover a condição sobre-humana. Manco, coxo, um só pé são epítetos de varias divindades podemos citar também Aquiles e o seu ponto fraco o calcanhar ou o saci do folclore brasileiro.
No caso de Édipo temos ainda o encontro com a esfinge, ser mítico mortuário, “abundando na opinião dos próprios sofredores, que o mundo subterrâneo mandara a esfinge contra Tebas( Karl Kerényi, Os Heróis Gregos ). Depois a perseguição pelas infernais  Erínias,acentuando o lado ctônico da personagem.Não podemos esquecer que o ferimento que Édipo recebeu nos pés é uma forma de evitar o malefício ao qual estava predestinado.
Leone Allaci falando dos Vampiros de Quios os  Kallikantzaroi, espíritos que deixam o mundo dos mortos para vagar sobre a terra, nós informa que as crianças nascidas entre o natal e a epifania tinham a planta dos pés queimadas para não se tornarem Vampiros.Carlos Ginzburg comentando a respeito:“ Entrevemos a reinterpretação daquilo que no passado devia ser um rito propiciatório, de caráter iniciático,   destinado a promover a condição sobre-humana quem a ele se submetesse”.Ou ainda “No desequilíbrio deambulatório que caracteriza divindades como Hermes ou Dionisio, ou então heróis como Jasão ou Perseu, deciframos o símbolo de uma passagem mais radical – uma conexão permanente ou temporária como mundo dos mortos”.
  “Mitos e ritos em que os ossos, encerrados nas peles, são usados para obter a ressurreição dos animais mortos foram identificados, como se recordará, num âmbito geográfico vastíssimo e heterogêneo”.“Isso permite generalizar a crença, registrada no principio do século XIII por Gervásio de Tilbury, segundo a qual o lobisomem que tivesse uma pata mutilada recuperava logo a forma humana. Quem vai ao outro mundo ou de lá retorna – animal, homem  ou a mistura de ambos – fica marcado por uma assimetria no caminhar”.Algumas partes deste texto inacabado de Marcos Torrigo e a compreensão sobre elas pode ser régiamente ampliada com a leitura do livro "Vampiros, Lendas, Origens lançada pela editora Idéia & Ação e de autoria do próprio Marcos Torrigo.


3.Cíto aqui os trechos estudados ao lado da terapêuta  Soraya Mariani e na obra "O corpo e seus símbolos da editora vozes" lá no ano de 2007  - posteriormente muito deste conteúdo foi agregado com os escritos e estudos do meu "Círculo Strigoi" e o conteúdo na íntegra pode ser conferido em nosso site oficial.Abaixo selecionei alguns trechos associados aos pés, tornozelos, joelhos e pernas bastante correlatos com os temas que abordamos neste diálogo entre algumas obras que me inspiraram na arte que evocou esta "postagem".
  • Pés: As nossas raízes: Você experimenta prazer em estar sobre a Terra? Se imaginarmos o corpo como uma árvore, a seiva está viva em nós desce até as raízes e sobe até os galhos mais altos. Nosso enraízamento no corpo que depende da nossa subida a luz e descida ao ctônico. Da saúde de nossos pés que vem o enraizamento. Através da purificação dos pés, podem escorrer nossas fadigas e tensões. Sem puxadas de sardinha, a palavra pés em grego relaciona-se a podos que deriva na palavra paidos que significa criança(!) Cuidar dos pés de alguém é cuidar da criança que o habita. Quer ajudar alguém? Lembre-se que a pessoa foi criança, que ainda é uma criança e que tem dor nos pés; Seus pés são seu ponto fraco? Como você se apóia sobre eles? Toque-os, sinta seus ossos, tendões, músculos e partes mais ou menos sensíveis. Quais suas raízes familiares? Quais suas raízes e sua ancestralidade de Magia? Quais as expectativas de seus pais em relação a você? Qual seu sentimento ao em relação ao seus filhos?
  • TORNOZELOS: a possibilidade de ir em frente: Termômetro da rigidez com que levamos a vida, os tornozelos tem relação direta com o momento do nascimento em Maiiah. É um momento de articulação entre a vida dentro e fora do útero. Alguns de nós conheceram dificuldades e e viveram até traumas nesse elo que une a vida fetal com o mundo exterior. Seu corpo guardou essa memória e a expressa na fragilidade dos tornozelos.Tornozelos simbolizam também o refinamento da vida e as relações intimas e a articulação do material com o espiritual, Se o tornozelo é o seu ponto fraco você tem dificuldades de avançar nos diversos aspectos da vida. Dar um passo a mais é ir além de nossos limites e também saber aceitar o que se é, seja isso agradável ou não, Essa é a condição de para ir mais longe. Muito bem, você tem dor nessa região? Essa região é rigida ou flexível? Sofreu entorses? Em que momento de sua vida eles ocorreram? É dificil avançar em relação ao que você quer? Qual é o passo que você precisa dar em diração ao que você quer? QUal é o passo que você precisa dar e o passo ao qual resiste?
  • JOELHOS, APOIO PARA DAR E RECEBER COLO: Flexibilidade! Principal característica para que os joelhos sejam saudáveis. Se eles são rígidos é possível que surjam problemas na coluna vertebral e nos rins; Em algumas línguas é curioso como a palavra joelho e a palavra filho têm uma ligação incomum. Em francês Genou, joelho tem a mesma raiz da palavra génerer, gerar. Em hebraico joelho é brekh e também bar e bèn significam filho...Ser filho ou filha é estar sentado no colo, envolvido por este gesto que é o elo entre joelho e o peito, temos nescessidades de dar e de receber essa confirmação afetiva e manter alguem no colo, sobre os joelhos serve para manter o coração aberto; Seus Joelhos são flexíveis? Rígidos? Doloridos? É bom toca-los ou não? Quem o pegou no colo quando você era criança? Esse gesto de intimidade é familiar para você? Qual a sensação? E você, para quem dá colo (seja fisicamente, seja como símbolo de acolhimento?)
  • PERNAS, COXAS O CAMINHAR: São responsáveis pelo transporte e pelo aspecto da pessoa, pela sua postura, sua maneira de apresentar-se, conduzir-se, de caminhar. Dando a importância de firmeza e leveza, ao mesmo tempo.Todas as relações com as pernas, joelhos, pés nos conectam diretamente com a nossa "mãe" interior por assim dizer, com a terra, com o nosso enraizamente na matéria. Abrir e fechar das cochas tem relação com a nossa ansiedade e medo, abertura e confiança.Como estão suas pernas? Leves ou pesadas?

4.Segundo Robert Graves no "Grande Livro dos Mitos Gregos", no verbete sobre o deus dos ferreiros Hefesto ele nos conta:"(...)A coxeadura do deus ferreiro é uma tradição que se encontra em regiões muito distantes entre sí, como a África ocidental e a Escandinávia.Em tempos primitivos, era possível que se aleijassem propositalmente os ferreiros para evitar que eles fugissem e se aliassem às tribos inimigas.Mas existia também uma dança da perdíz claudicante, que se executava nas orgias eróticas relacionadas aos mistérios da arte da forjadura.Portanto é igualmente possível que Hefesto depois de se casar com Afrodite, mancasse apenas uma vez por ano no festival da primavera.(...)" adiante sobre esta dança ainda teremos que ela era executada na primavera e em homenagem a deusa lua:"(...)e os dançarinos manquejavam e envergavam asas.Na Palestina tal cerimônia, chamada de Pesach(O Claudicante), ainda era executada, segundo Jerônimo, en Berth-Hoglah(O Santuário do Coxo), onde os devotos dançavam em espiral.Berth-Hoglah pode ser identificado com o "campo debulhado de Atad", onde se chorava a morte do coxo rei Jacó, cujo nome provavelmente significa Jah-Aceb (Deus Calcanhar).Jeremias aconselha os judeus a não participarem desses ritos orgiásticos cananeus, e diz: A Perdiz reúne filhotes que não gerou! Ánafe, uma ilha ao norte de Creta, com a qual Minos tinha um pacto, era famosa na antiguidade como lugar de descanso para as perdizes migratórias.(...)"

Sem esquecermos que o próprio autor acredita que o nome Hefestos (pelo menos na cidade de Athenas, onde ele dividia o templo com sua meia-irmã a Deusa Atena) seja uma variação de "Hemero-Phaistos"(aquele que brilha de dia, o sol), ao passo que a deusa Atena (aquela que brilha a noite) padroeira dos ferreiros e de todas as artes mecânicas - convêm não esquecermos que as corujas sempre foram o animal totêmico par excelence dela.O mitógrafo ainda conta que o próprio Dédalo foi instruído nas artes do ofício de ferreiro pela própria deusa Atena.Ou como Graves nos conta:"(...)quando a deusa foi destronada o ferreiro foi alçado a categoria de divindade(...)" Já o nobre Mírcea Elíade não hesitou em afirmar o ferreiro como o xamã e o grande feiticeiro de outrora.Mas esta é uma outra história para um outro "post"!Este último trecho veio do Grande Livro dos Mitos Gregos, do Robert Graves, lançado e editado no Brasil pela editora Ediouro.

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