É apenas um livro. Podemos dizer se ele é bem ou mau escrito, podemos fazer atribuições sobre o direcionamento de seu conteúdo encontrar ressonância mais com um tipo de público do que com outro; ainda assim continua sendo apenas um livro. Será que descansa uma maldição ou um “tabu” apavorante em suas páginas? Dizem há muito tempo que a sua posse é perigosa, que ele deveria ser queimado depois de lído (e até que o .PDF deveria ser deletado neste caso). Dizem que suas orações, esconjuros e ensinamentos de cartomancia provocam transformações antes inacessíveis aos seus leitores. Mas enfim, ele é apenas um livro quem decide ou escolhe o que fazer através dele – bem como a quem ele poderia escolher chegar de alguma forma – que é o responsável pelo que escolher deixar acontecer.E este artigo rendeu uma pauta no Programa Enigmas da TV Facebook em Maio/2013
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Este aqui é um dos modelos do Necronomicon usado no filme do Sam Raimi, vulgo Evil Dead ;-) |
Como o tal do “Necronomicon” do filme Evil Dead é um tanto
quanto inacessível e por razões óbvias. Poderíamos pensar então em um outro livro de poder assim como aquele outro livro do Doutor John
Dee em linguagem Enochiana (que ocultistas modernos dizem que o Necronomicon
foi inspirado nele), porém ainda assim serial algo distante e de rara
compreensão. Simplificando, poderíamos recorrer ao Necronomicon do ocultista
Donald Tyson publicado no Brasil pela Madras (mas tal obra é apenas uma
extensão imaginativa ricamente criada sobre o universo ficcional de
H.P.Lovecraft).Poderíamos tentar então achar alguma inspiração nas ricas
ilustrações do artista plástico suíço que desenhou um livro de artes homônimo
“Necronomicon”.Só que o tal do “Necronomicon” no final das contas foi uma criação
do contista de almanaques ficcionais norte-americano Howard Philips
Lovecraft.Claro que o ocultista e magista britânico Kenneth Grant apresenta
boas evidências e convergências entre os encontros oníricos de Lovecraft com seus seres inefáveis e ctônicos – que seriam as
mesmas deidades encontradas pelo magista Aleister Crowley.A diferença é que o
primeiro julgava seus encontros aterradores sonhos e os analisava sobre um
filtro moral – já o segundo...
Existem muitos grimórios e livros que detêm grande poder em
seus conteúdos informativos. Entre eles temos alguns como o Le Dracon Rouge, o
Legemeton, aquele do Papa Honório e muitos outros. Em geral foram traduzidos do
latim para o inglês ou mesmo o francês e foram inacessíveis as pessoas que não
dominassem tais idiomas por muito tempo. Sem mencionarmos os preços elevados que
sempre envolveram a importação de livros estrangeiros no passado. Graças aos arquivos .PDF
a apreciação de tais obras tornou-se mais acessível aos estudantes diligentes.
Alguns destes grimórios citados e muitos outros tiveram boas traduções para o
português realizadas pelo casal Francisco e Giselle Marengo da E.I.E Camimhos
da Tradição.
Aqui no Brasil, Portugal e países da América Latina o mais
conhecido dos grimórios é o “Livro de São Cipriano” – o poder atribuído pelas
pessoas ao tal livro é realmente impressionante e algo duradouro que as vezes
atravessa gerações de muitas famílias. Algumas de suas edições passam das mãos
de avós para netos, bisnetos e afins dentro de uma família – e de algumas comunidades
religiosas variadas. Sendo algo bastante tradicional e com o toque delicado de
relíquia familiar, páginas dobradas, ervas e flores secas no meio, anotações a
lápis dos mais antigos e dos proprietários posteriores. E assim há uma beleza e
um poder único em tais artefatos. Nos dias de hoje existem algumas milhares de
versões desta obra que em geral tem um núcleo de conteúdo mais ou menos fixo e
muitos outros que são anexados com graus variantes de pertencimento e afinidade
de acordo cada capa ou versão. Em geral sempre acabamos vendo nestas
publicações a presença da oração da cabra preta, oração do anjo Custódio,
oração para enfermos na hora da morte; o Magnificat; a cruz de São Bento; pacto
com o demônio; demandas para desmanchar relacionamentos e afins. Só que
geralmente existem versões e versões destes e tantos outros conteúdos em cada
edição. Nos tempos de hoje existem até versões politicamente corretas que
suprimem partes dos feitiços para não chocarem os paladares mais delicados dos
leitores e leitoras – observação aliás realizada por minha amiga Shirlei
Massapust. Todas as edições lançadas no Brasil afirmam ser o verdadeiro livro
de São Cipriano. Mas e aí? Qual delas que será?
A resposta é tão subjetiva e misteriosa como o perfume de
flores a meia-noite no jardim. Se houvesse um livro verdadeiro – e os relatos
afirmam que existiu – o próprio autor, o São Cipriano de Cartago queimou a
maior parte do livro pouco antes de se converter ao cristianismo. E se algum
conteúdo chegou aos dias de hoje, dizem que foi por conta de que alguém o
traduziu o que sobrou do hebraico. Mesmo assim, quem conta um conto aumenta
alguns pontos e com o passar do tempo e do surgimento de versões muitos
relatos, situações e personagens anteriores e posteriores a época que viveu Cipriano
foram reunidos a narrativa – sem um direcionamento ou propósito que possa ser
percebido pelo senso-comum. Mesmo o tom das versões expressam diferenças
perceptíveis, algumas edições são mais brandas e outras mais severas.
A tônica dominante permanece como a vitória do Bem sobre o Mal; de que os artifícios e os sortilégios diabólicos, não exercem poder sobre os fiéis servos de Cristo. E tais publicações do livro de São Cipriano acabam se tornando um almanaque ocultista de cultura e de sabedoria popular – o que não depõem contra a integridade de seu conteúdo e no fornecimento de informação, inspiração e resposta para aqueles que buscam por seu conteúdo. Quem procura os conteúdos do livro com intenções de praticar a crueldade sobre outras pessoas – já era cruel antes e usaria até mesmo a Bíblia ou qualquer outro livro sagrado para atingir seus intentos. Quem procura o livro para cura, inspiração e respostas também será agraciado por suas páginas. Não podemos nos esquecer que a crença brasileira na “Urucubaca” e sua evolução a “Urucubaca braba”, bem como no olho-gordo, mau-olhado e afins integra nosso folclore regional e que o Livro de São Cipriano é o almanaque popular (cristão) mais acessível para tecer imagens de como em cada época as pessoas encontraram soluções e registraram seus costumes na lída com tantos artifícios da condição humana. Ele é uma ferramenta ou arma, quem o empunha direciona e paga pelas consequências.
Como mencionei há evidentes falhas históricas nas edições do Livro de São Cipriano. Havendo personagens e situações que existiram muito tempo antes ou ainda muito tempo depois da vida e da autoria da obra. E mesmo quando temos alguém com um nome famoso, podemos ver as vidas e obras de pessoas com o mesmo nome serem assimiladas e atribuídas a pessoa mais famosa ou reconhecida – algumas vezes isso acontece acidentalmente e outras propositalmente (como para fugir de uma perseguição religiosa ou da própria inquisição). A respeito desta possibilidade a pesquisadora Shirlei Massapust (após a publicação deste artigo) apontou que houve um Cipriano de Valera (que viveu entre 1532 e 1602) um religioso e humanista, que conviveu e foi discípulo de João Calvino ou seja esteve ligado ao protestantismo – o que era algo turbulento, pois a inquisição estava bem ativa naquele momento e não apreciava protestantes. Outra coisa que a inquisição não suportava além de críticas, eram heresias ou praticantes de magia. E quando queriam condenar alguém, não hesitavam em interpretarem as obras e os atos do acusado sob seu olhar intolerante.E Cipriano de Valera teve que encarar a perseguição inquisitorial, embora tenha conseguido escapar. Agora, fica a questão se ele era ou não um magista e se uma de suas obras chamada "Tratado para confirmar los pobres cautivos de Berbería en la católica y antigua fe y religión cristiana, y para consolar, con la palabra de Dios, en las aflicciones que padecen por el Evangelio de Jesucristo" era ou não a base ou núcleo original do Livro de São Cipriano que temos nos dias de hoje.Tal pesquisa se encontra em andamento e quando Shirlei a tiver disponibilizado, ofereceremos o link para nossos leitores e leitoras aqui!
A tônica dominante permanece como a vitória do Bem sobre o Mal; de que os artifícios e os sortilégios diabólicos, não exercem poder sobre os fiéis servos de Cristo. E tais publicações do livro de São Cipriano acabam se tornando um almanaque ocultista de cultura e de sabedoria popular – o que não depõem contra a integridade de seu conteúdo e no fornecimento de informação, inspiração e resposta para aqueles que buscam por seu conteúdo. Quem procura os conteúdos do livro com intenções de praticar a crueldade sobre outras pessoas – já era cruel antes e usaria até mesmo a Bíblia ou qualquer outro livro sagrado para atingir seus intentos. Quem procura o livro para cura, inspiração e respostas também será agraciado por suas páginas. Não podemos nos esquecer que a crença brasileira na “Urucubaca” e sua evolução a “Urucubaca braba”, bem como no olho-gordo, mau-olhado e afins integra nosso folclore regional e que o Livro de São Cipriano é o almanaque popular (cristão) mais acessível para tecer imagens de como em cada época as pessoas encontraram soluções e registraram seus costumes na lída com tantos artifícios da condição humana. Ele é uma ferramenta ou arma, quem o empunha direciona e paga pelas consequências.
Como mencionei há evidentes falhas históricas nas edições do Livro de São Cipriano. Havendo personagens e situações que existiram muito tempo antes ou ainda muito tempo depois da vida e da autoria da obra. E mesmo quando temos alguém com um nome famoso, podemos ver as vidas e obras de pessoas com o mesmo nome serem assimiladas e atribuídas a pessoa mais famosa ou reconhecida – algumas vezes isso acontece acidentalmente e outras propositalmente (como para fugir de uma perseguição religiosa ou da própria inquisição). A respeito desta possibilidade a pesquisadora Shirlei Massapust (após a publicação deste artigo) apontou que houve um Cipriano de Valera (que viveu entre 1532 e 1602) um religioso e humanista, que conviveu e foi discípulo de João Calvino ou seja esteve ligado ao protestantismo – o que era algo turbulento, pois a inquisição estava bem ativa naquele momento e não apreciava protestantes. Outra coisa que a inquisição não suportava além de críticas, eram heresias ou praticantes de magia. E quando queriam condenar alguém, não hesitavam em interpretarem as obras e os atos do acusado sob seu olhar intolerante.E Cipriano de Valera teve que encarar a perseguição inquisitorial, embora tenha conseguido escapar. Agora, fica a questão se ele era ou não um magista e se uma de suas obras chamada "Tratado para confirmar los pobres cautivos de Berbería en la católica y antigua fe y religión cristiana, y para consolar, con la palabra de Dios, en las aflicciones que padecen por el Evangelio de Jesucristo" era ou não a base ou núcleo original do Livro de São Cipriano que temos nos dias de hoje.Tal pesquisa se encontra em andamento e quando Shirlei a tiver disponibilizado, ofereceremos o link para nossos leitores e leitoras aqui!
Haverão leitores e leitoras que argumentarão negativamente
sobre o fato da obra conter instruções para pactos demoníacos, orações e rezas
não tão edificantes quanto se espera e ritos nefastos a sua sensibilidade. Só
que existem tantas pessoas que afirmam rezar para o bem e a saúde e são as
primeiras a se esquecem ou deixam de lado a medicina e a responsabilidade por
cuidarem de sí. Temos os casos das pessoas que passam a ignorar e refutarem
laudos médicos porque seus pastores ou líderes espirituais os proíbem, dizendo
que apenas sua oração pode curar cada um deles.E quando alguém reza e acende
vela para ter um emprego novo ou melhores chances em uma entrevista, o que vem
a colocar os outros candidatos em desvantagem espiritual. Roteiristas de
quadrinhos e de filmes costumam dizer que os melhores vilões – desconhecem que
são vilões. E o livro de São Cipriano goza de uma reputação fídeligna em muitas
obras de terror – bem como nos “causos” contados por nossos avós e também nas
colunas policiais quando tem crimes associados a magia negra e ocultismo. Por
ser algo tão próximo e tradicional do popular e do imaginário cristão a obra é
reverenciada e encontra grande ressonância – temida e adorada. Eu mesmo tive a
oportunidade de constatar a potência de sua mítica há alguns anos atrás:
“(...) estava indo de trem para apresentar uma palestra sobre mitologia
comparativa na região do Grande ABC junto a alguns colegas conferencistas e
integrantes do meu curso. O vagão estava lotado e todas as pessoas se
exprimiam. Um colega brincou comigo e disse para eu fazer algum feitiço ou usar
meus dons para mudar a situação.Com minha peculiar espirituosídade, coloquei a
mão na mochila e peguei uma agenda de capa dura preta e falei em tom alto: Olha
o livro de São Cipriano, o bruxo que virou santo...baratinho...leve o seu agora
mesmo...talvez por conta de meus trajes e da inusitada performance (naqueles
trens é muito comum a presença de vendedores) as pessoas entraram em pânico e
mais da metade do vagão desceu na estação seguinte – quem ficou, ficou
amedrontado e ressabiado...e eu e meus colegas fizemos o restante da viagem
tranquilamente.(...)”
Posso dizer que meu interesse em escrever um artigo sobre o
Livro de São Cipriano se iniciou formalmente naquele momento. Percebí que a menção ao livro era um tabu, algo de poder insondável no imaginário daquelas pessoas – sua
ligação com o senso comunitário, cultural, potência para atender expectativas e
ansiedades e oferecer uma via das pessoas participarem do grande drama cósmico
– era uma evidência irrefutável. Realizar as proezas alí descritas ou mesmo ser
vítima ou alvo delas, evidenciava uma ameaça real e imediata – era para cada um
deles como estar junto aos guias e toda a mítica da cultura popular cristã. A
ameaça da presença de tal livro era como tocar ou vislumbrar um tabu. Fosse
pelos anos e a cultura de sugestionamento maligno atribuído a elas sobre o livro
– que continuava apenas sendo um livro. Os mesmos surtos a respeito desta obra
podem ser observados em fóruns e Yahoo Answers da internet. A palavra
preconceito e o ato do livro ser tomado de forma depreciativa e alvo de
críticas pesadas por integrantes de denominações evangélica mais radicais e
outros agrupamentos crísticos radicais – é uma evidência relevante também. Fica
difícil para mim não observar como o tal do “pensamento mágico” de
Bergiers ainda se mostra claramente
presente nos dias de hoje, bem como as pessoas sempre precisam de agentes
externos (demônios) ao invés de assumirem seus fados e o próprio Destino –
sustentando como vem a serem...
Mas afinal quem foi São Cipriano de Cartago? Sabemos
historicamente que depois de se converter ao cristianismo foi um grande doutor
da moral cristã, um Bispo responsável que organizou a igreja na África, criou o
latim cristão e foi um expressivo orador daqueles tempos. Morreu torturado e
flagelado junto a uma moça chamada Justina, sob ordens do imperador romano
Diocleciano. Mas antes de tudo isso ele foi um homem que viajou por incontáveis
terras do mundo antigo e profundo conhecedor dos antigos deuses e sua magia e
feitiçaria, gozava de grande reputação e até diziam que aprendeu magia negra
com a legendária Bruxa de Évora. Durante suas buscas e viagens escreveu um
poderoso grimório e um dia teve seus serviços contratados por um rapaz que se
apaixonou por uma moça chamada Justine. Ela havia se convertido ao cristianismo
e consagrado sua virgindade e pureza a Deus – o rapaz queria casar com ela, os
pais haviam concordado mas ela não queria o rapaz e queria honrar seus votos.
Já que Cipriano era um grande feiticeiro, ele poderia tombar a vontade dela e
fazê-la se entregar ao tal rapaz através da magia. Só que cada pó mágico,
feitiço, invocação, assédio demoníaco que Cipriano tentou sobre ela veio a
falhar miseravelmente. Desconcertado e descrente de seus patronos, contam que
ele incinerou a maior parte do seu grimório e se livrou do tal e depois ele escolheu
se aliar ao deus que mostrava-se mais poderoso. Ele morreu como mártir e foi
canonizado como um santo – alguém mais próximo do bom-deus cristão.O que merece
respeito e a devida solenidade. Até hoje pessoas rezam por sua guia, buscam por
seu patronato espiritual em cultos católicos e também nas religiões
afro-caribenhas que fazem uso de algo grau de sincretismo. E sob um olhar
“não-ordinário” tais afirmações tem grande valor para cada um que encontra na
jornada dele pertencimento, proteção e sentido.
Solenemente me escuso aqui por eu ter sído tão imaturo por
conta da minha experiência pessoal que relatei aqui sobre o ocorrido naquele
trem - mencinando o livro de São Cipriano. Não pratico os conteúdos do livro de São Cipriano apenas por uma questão
de gosto e de trilha pessoal, da minha parte quando o assunto são grimórios eu
prefiro escritos de Ficcino, o famoso Le Dracon Rouge e tantos outros aqui
mencionados. Ainda assim espero ter oferecido um artigo que apresente o Livro
de São Cipriano com dignidade e que instigue curiosidade e explorações através
de um olhar mais maduro e distante do senso-comum de cada leitor ou leitor sobre
seus conteúdos! Até a Próxima!
de fato , meramente mencionar este livro causa frisson...
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