quarta-feira, 25 de julho de 2012

"Ele ao menos destruiu os gigantes de Gelo: Daquilo que aprendí com Odin!" Parte 1


Parte I: A cor vermelha da Inspiração!
por Lord A:.

Arte de Beate Dalton - visite o site
1. Nosso primeiro contato com a mitologia nórdica foi na infância através dos quadrinhos da editora norte-americana Marvel e seu núcleo de personagens das aventuras do poderoso Thor.Tudo isso aconteceu quando ele ainda era escrito e por vezes desenhado nos quadrinhos pelo Walter Simonson - nesta época suas aventuras eram baseadas em mitos nórdicos e as páginas repletas de elfos negros, anões, dragões e muitos outros personagens e sempre pelo austero, severo e distante "Odin"...tanto nos quadrinhos quanto no infame desenho "Super Heroes Shell" ou a participação em um episódio do antigo seriado do Hulk - o personagem Thor e seus pai sempre detiveram como mais ninguém a nossa atenção.(o que por ventura justificaria as incontáveis traquinagens golpeando tudo com um martelo de brinquedo da Troll...)
A figura de "Odin" é extremamente complexa e poderosa em toda espiritualidade nórdica bem como nas suas representações culturais para as massas. Ele é o "Invencível". Embora perdesse algumas batalhas, nunca perdeu as guerras em que esteve envolvido. Apesar de vivermos o ano de 2012 considerado um tipo de fim-de-mundo por pessoas bastante impressionáveis, fazemos parte da turma que considera o "Ragnarok" (fim-dos-tempos dos nórdicos) apenas uma baléla medievalesca de monges cristãos. Ele tinha muitos epítetos (ou qualidades) que lhe possibilitavam uma ampla gama de formas e visões variadas sobre sua potência e suas ações por vezes tomadas como se fossem muitos outros deuses. Ainda assim a maior parte dos pesquisadores acreditam na existência de apenas um único arquétipo chamado de Wodanaz ou Wothan na Alemanha; Wodan na Holanda, Woden na Inglaterra e Odin na Escandinávia. Sabemos que Wodanaz (ou Wode retratava sua face titânica e primeva, regente de tempestades - até hoje as raízes etmológicas de "wütte"& "wodjan" significam "raiva" em alemão antigo ou moderno) é seu nome mais arcáico e contemporâneo de deidades como Thurisaz e Teiwaz (nomes de runas e deuses precursores de Thor e Tyr) era então uma divindade responsável pelo tempo e a colheita. Suas funções e importância cresceram (assim como a de outros deuses, em outras tribos e reinos) conforme o desenvolvimento das civilizações dos seus devotos - o que engloba novas funções, assimilação de funções de outros deuses, implicações políticas de famílias de reis sagrados, conquistas, derrotas e afins. A sábia Mirella Faur, na obra Mistérios Nórdicos aponta que:"(...)Odin não nasceu deus onisciente e poderoso; ele foi se aperfeiçoando e progredindo, saindo de uma posição inferior na hierarquia divina e se elevando, por meio de sua determinação e dos sacrifícios feitos para alcançar a sabedoria. Passou assim, da condição de Odin para a de deus Odin(...)" A pesquisadora Mirella Faur também apontará Odin como a personificaçao do xamã universal:"(...)Pelo sacrifício iniciático na Árvore do Mundo, por nove dias e nove noites; pelo sacrifício de seu olho da razão para beber da fonte de Mimir, sendo que este representa a memória ancestral e sua fonte é o repositório de todos os conhecimentos dos antepassados, obtidos pela intuição e pela visão interior; pela ingestão diária de Odhroerir, o elixir da inspiração, essência da consciência divina dos Ases e Vanes, roubada da giganta Gunnlud(...)"
Nas histórias em quadrinhos e desenhos animados da editora Marvel e mesmo nos atuais filmes de sucesso da franquia "Thor", temos Odin já retratado como Deus Supremo. Lá podemos delinear claramente seus epítetos mais conhecidos como "Alfadhir", o Pai-de-deTodos; "Svithur", o Sábio; "Sigfadhir", o Pai da Vitória entre outros.Temos alí a célebre representação dele em seu resplandescente trono sob um teto de prata. Desconheço se o tal palácio da Marvel chamava-se "Valaskialf". Ainda nesta bem-aventurada época da infância saboreávamos as aventuras do Príncipe Valente de Hal Foster, na extinta revista em quadrinhos (gigantesca então, chamada Gibi, da editora EBAL) que ficava na coleção dos tesouros do meu pai. Vez por outra emprestávamos dos meus primos os álbuns franceses de Asterix e Obelix, que por vezes encontraram-se com os Vikings. Nossa educação cinematográfica foi régia e generosa incluindo filmes como "The Vikings" com Kirk Douglas e Tony Curtis. Não poderíamos esquecer do impagável filme "Erick, O Viking" com integrantes do grupo de comediantes ingleses Monty Python (e o padréco que não conseguia enxergar as manifestações dos mitos sagrados dos nórdicos, mesmo quando a trupe de personagens chega ao Valhalla). Cada uma destas obras abordavam a cultura e a espiritualidade nórdica em diferentes fases históricas - e em cada uma delas Odin tinha especificidades e por vezes era o responsável por diferentes funções de uma deidade irada e guerreira a um sábio conselheiro que se revelava e se ocultava conforme o momento. Olhando de uma perspectiva histórica veremos que os heróis franceses Astérix e Obélix encontrarão os nórdicos por volta do ano 50 Antes de Cristo, ainda nos tempos do Império Romano, sob a regência do grande general Júlio César. Já nos quadrinhos do Príncipe Valente de Hal Foster, o encontro com os vikings se dará nos tempos míticos do Rei Arthur o que é estimado que seja por volta do século V ou VI depois de Cristo.O filme The Vikings com os dois grandes astros de Hollywood, aborda os tempos da invasão da Inglaterra o que acredito ser o século IX Depois de Cristo - que deve coincidir cronologicamente com a produção dos comediantes do Monty Python. Nestas obras as visões sobre Odin são expressas nos tempos contemporâneos observando com maior ou menor fidedignidade o arquétipo do guerreiro mais idoso, mais hábil e sábio da grande figura - e geralmente contando com seu filho Thor, por vezes rebelde, como o executor legal de suas ordens.

Através da pesquisa histórica sabemos (ou pelo menos temos bons indícios) de que o culto a Odin (ou Wothan) se fírmou entre os anos de 350 e 550 DC - eram os tempos do declínio e desintegração do Império Romano, que foram conhecidos como "migração" pois é contado que as tribos celtas e teutônicas se deslocaram para o oeste e o norte da Europa, ramificando seus cultos, símbolos e mitos. Foram tempos de lutas que ficaram registradas e enaltecidas nas canções dos menestréis, na prosa e na poesia. Os teutônicos eram formados de pequenas tribos guerreiras, chefiadas por aristocratas que viviam em busca de novas terras para saquear e conquistar. É contado que respeitavam as mulheres e às leis tradicionais regidas por suas divindades que eram responsáveis por fenômenos celestes, prosperidade e o mundo subterrâneo (abrigo de gigantes, monstros e das almas dos ancestrais - temidos pelas forças que podiam desencadear). O sagrado de cada povo é o reflexo da sua vida cotidiana. Entre os séculos VI e VII, após uma duradoura resistência - este povo, os alemãos continentais bem como os anglo-saxões foram convertidos pelo ferro e o fogo dos baluartes cristãos ao menos nas cidades e pelos nobres. Como bem sabemos nos campos tudo levava muito mais tempo...
Devemos esclarecer que o termo Viking se referia aos nórdicos que desciam pelo oceano e que o termo Varranger se referia aos que desciam pelos grandes rios do norte da Rússia até alcançarem o Mediterrâneo. Já mais ao norte, na Escandinávia os cultos pagãos resistiram por mais tempo e floresceram no período Viking entre 792 e 1066 DC. Sobre os Vikings veremos que ao se aventurarem para longe de suas pátrias em busca de comércio, conquistas e pirataria, ramificaram suas crenças e cultura e as transmitiram para aqueles que venciam - e ainda assimilavam alguns hábitos cristãos (usar o martelo de Thor atrelado ao crucifixo, erigir pedras funerárias com inscrições rúnicas e construirem templos pagãos de madeira). Já ao encontrarem as sanguinárias tribos das estepes russas (o que é particularmente interessante para os leitores "Vamps) estes povos aumentaram os sacrifícios de sangue aos deuses Odin, Thor e Tyr - trocando os animais pelos sacrifícios humanos, neste caso prisioneiros e escravos.Certamente os monges cristãos tornaram este espetáculo muito pior do que já era e omitiram propositalmente os significados destes cultos pagãos. Através da pesquisa arqueológica sabemos das crenças sobre morrer em batalha e assim partir para o Valhalla, morrer de velhíce, sem-glórias ou por doença que acarretava a partida para Hel e ainda a morte no mar que conduzia para o reino do deus dos mares. Observamos também que havia uma crença entre as mulheres de que apenas íriam para o Valhalla se por livre vontade sacrificassem ritualísticamente suas vidas quando da morte de seus homens de forma heróica. A questão do sangue vertido com estes sacrifícios sobre a terra será merecidamente explorada e desnvolvida na conclusão deste artigo.Tanto que neste período termos locais como "heathen"(em inglês) e "heiden"(em alemão) significavam escondido e eram usados perjorativamente para identificarem pagãos e hereges - representando eles como um perigo para a doutrina cristã.Os poucos testemunhos escritos destes tempos, consistiam em inscrições rúnicas feitas em ossos, metal e pedra bastante curtas e criptografadas exaltando ancestrais, façanhas, seres míticos e afins.
Na adolescência "lemos" (e "relemos") o romance "Os Devoradores de Mortos" que posteriormente virou um filme chamado o "Décimo Terceiro Guerreiro" com os atores Antonio Banderas e uma participação majestosa de Omar Shariff. Isso aconteceu ainda no final da década de noventa e assistí este filme no cinema na companhia do meu pai que desde a infância sempre me apresentou a temática mitológica - e construía réplicas de machados e espadas para nossas brincadeiras. O filme e o livro foram baseados no relato histórico sobre o primeiro encontro dos árabes com os vikings e a aventura de um árabe junto a outros doze nórdicos para derrotarem uma tribo inimiga em suas próprias terras. Sendo inesquecível a prece dos nórdicos antes das batalhas e quando eles chamavam por "Ooooooodiiiiiiinnnnn!", para verificarem se a terra estava próxima quando navegavam através da neblina.Tanto no livro quanto no filme podemos delinear e sentir a imagem de Odin já como um "Deus Supremo" porém sem luxos ou glamour com o qual acostumamos a imaginação nos quadrinhos da Marvel. Aqui tudo era mais telúrico, mais pé no chão mesmo e bastante rústico - o que veio a conferir um charme muito superior e e sem dúvida oferecer (ao menos para mim) uma experiência mais vivêncial e certamente espíritual bem distante das fantasias e produções culturais em voga na época.Na obra de Michael Crichton podemos perceber Odin como senhor do Valhalla e seus epítetos e qualidades de "Psicopompo" (condutor das almas encontradas, recolhidas e conduzidas durante suas peregrinações através dos nove mundos, montado em seu corcel de oito patas - uma para cada data de poder do calendário sagrado - ou "reinos" da árvore do mundo!). Aqui sentimos seus atributos como "Grimnir, o Encapuzado" e certamente a imagem perfeita para ser comparado ao "Diabo" pelos monges cristãos (os contos medievais não foram nem um pouco generosos e distorceram bastante esta face de Odin com suas versões da Caçada Selvagem). Outras atribuições dele enveredam para "Fjolnir", aquele que se esconde;"Harbadr", o barbudo grisalho; "Valfadhir", o Pai-dos-Caídos-em-Batalha.Tais descrições o associavam a alguém que caminhava ao lado de lobos e de corvos, o que para um líder de uma dinastia de tendências plutonianas até hoje permanece devidamente fascinante.
Ainda nos quadrinhos jamais poderíamos esquecer de mencionar a aparição de Odin, Loki e Thor nas edições do personagem "The Sandman" escritas pelo britânico Neil Gaiman, principalmente na saga "Estação das Brumas" - onde eles e muitos outros deuses cortejavam o Senhor dos Sonhos para ficarem com a guarda do Inferno de Lúcifer.Da perspectiva do desenhista e do autor e de suas representações para os três deuses, podemos afirmar sem erros que foram as caracterizações mais fídedignas que pudemos observar deles nas histórias em quadrinhos.Gaiman e a turma de desenhistas e arte-finalistas, bem como o capista Dave McKean saíram-se muito bem. A personificação de Odin remete claramente às suas qualidades de "Ganglery", o andarilho;"Har", o caolho e "Svalfnir", que adormece os escolhidos.Um patrono da sabedoria que menciona algumas vezes sobre seu elixir de inspiração (cítado como "Mulco") e certamente sobre o seu solar - retratado nos moldes mais rústicos e diferenciados do glamour da Marvel. Certamente a presença de um tom mais "grave" e levemente "lúgubre" foi bastante apropriado para oferecer solidez e despertar o interesse e a atração de muitas pessoas para os mitos e ritos nórdicos.
O tempo passou e assistí um filme de ficção (uma distopia viking) chamado "Beowulf" com o Christopher Lambert (sim o eterno Highlander) ambientado num futuro erotizado, medievalesco e pós-apocalíptico, uma re-leitura do célebre mito do herói Beowulf no solar de Krothgar. O que de certa forma nos remete aos personagens secundários do "Devoradores de Mortos" ou do "Décimo Terceiro Guerreiro".Ainda neste clima de encontros através do tempo da cultura Viking (mesmo que idealizada) com ícones culturais posteriores temos ainda os encontros de Batman da DC Comics de forma sutíl nas narrativas de Frank Miller na mega-saga "Cavaleiro das Trevas" dos anos oitenta; ou ainda em "Asylum Arkham" onde o próprio Batman se compara a Odin amarrado e trespassado pela própria lança - durante um confronto com seu inimigo "O Crocodilo". De forma mais objetiva temos outros econtros do homem-morcego com Vikings na obra "Encarnações" de Bo Hamptom & Mark Kneece (da linha Túnel do Tempo). Pensando em termos de cultura "POP" temos o personagem "Batman" como nosso procurador nos domínios da sombra, da escuridão e do território não-modelado (e recentemente na saga "Retorno de Bruce Wayne" foi convertido em avatar da justiça, depois de morrer, renascer, ser arremessado através do tempo e evocado em cada época toda vez que pessoas que sofriam injustiças clamavam aos antigos deuses por um ajustamento de contas - o escritor desta interessante jornada xamânica repleta de simbolismo e a guia do "Morcego" como animal de poder e o confronto de Batman/Bruce Wayne com a sombra na forma do HiperAdaptador - e a influência deste confronto simultaneamente e em todas as épocas por todos os integrantes de sua linhagem familiar  foi o escritor britânico Grant Morrison, o mesmo que o comparou com Odin em Asylum Arkham). O tom grave (e quiçá Plutoniano) de desenhistas que retratam Batman meio na penumbra e só com um olho brilhante ou ainda meros traços de luz refletida na sua silhueta, bem como a infinidade de disfarces usados por ele - e mesmo suas repentinas mudanças súbitas de lado para impôr a justiça são atributos relevantes e comparáveis aos traços mais sombrios de Odin. 

Alguns dos cultistas de Odin travestiam-se de peles de animais tanto de ursos quanto de lobos - eram os Berserkers e Ulfheadjars. Ferozes ritos de combatentes incansáveis que faziam uso do transe ou do processo extático e de técnicas intimidatórias de guerra bastante únicas, sua reputação era tamanha que o imperador de Bizâncio por décadas manteve uma guarda-pessoal deles - devido á sua eficácia e ausência de restrição moral ou social de qualquer tipo. Existem relatos da fúria de um ou dois soldados Berserkers solitários derrotanto números que alcançavam uma ou duas dezenas de oponentes - muito próximos das artes do ilustrador Frank Frazzetta. Estes distintos guerreiros viviam reclusos, sob uma árdua disciplina e severos processos iniciáticos para oferecerem suas vidas a Odin e outros Deuses. Talvez sua contraparte feminina fossem as sacerdotisas da morte, encarregadas dos ritos sacrificiais e da preparação das vítimas que iam "ao encontro de Odin" pelo ritual da morte tripla.Tais práticas (inicialmente dedicadas a Tyr e posteriormente a Odin) ainda deixaram evidências em pleno século XI no famoso templo de Upsalla na Suécia - consta que tais ritos eram dedicados às qualidade de Odin tais como "Hangatyr" Deus dos Enforcados (a forca era chamada de Cavalo-de-Odin, o que no momento que escrevíamos este artigo me remeteu aos passeios da São Paulo Maldita no bairro da Liberdade, que no passado o lugar onde as pessoas eram enforcadas - leia mais aqui), "Offlir", o Estrangulador" e ainda um outro que não achamos a referência apropriada como Arremessador de Lanças (o que particularmente nos faz pensar em correspondências simbólicas entre "relâmpagos e tempestades"- e me lembra de um conto onde o grande Jorge Luís Borges explica as principais metáforas das Eddas e poesias nórdicas). As Válquirias (divindades guerreiras femininas) também acompanhavam ora a Odin e outras a Freyja, com quem dividiam os mortos ou mesmo a silenciosa Frigg - eram responsáveis por escoltarem as almas dos mortos em batalha, por bravura e nobreza, aos salões de Valhalla. Conta-se que antes dos tempos Vikings tais deidades femininas tinham maior liberdade de ação e posteriormente se tornaram mais lúgubres aparecendo em sonhos tecendo teias de vísceras e caveiras, anunciando quem haviam escolhido para morrer e recolher as almas e ainda quem íria vencer ou perder a guerra. Seus aspectos urânicos e telúricos encontram intensa ressonância com as Dakinis tibetanas - sendo consideradas por vezes equivalentes - tanto nas faces mais cavernosas e viscerais, quanto nas mais etéreas e voluptuosas - em algumas traduções do "Livro dos Mortos Tibetano".


"CONTINUA..."

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