terça-feira, 13 de novembro de 2012

De Atlântida para Avalon: Nas Teias de Dion Fortune e Marion Zimmer Bradley (de Lord A:.)

Dion Fortune & Marion Zimmer Bradley
 You hear laughter
Cracking through the walls
It sends you spinning
You have no choice

Following the footsteps
Of a rag doll dance
We are entranced
Spellbound
Spellbound - Siouxsie and the Banshees


Se dissermos que no imaginário feminino a obra ficcional "As Brumas de Avalon" equivale e tem o mesmo peso da Saga "Star Wars" no imaginário masculino - posso estar sendo levemente exagerado - mas não faltarei com a precisão em tal idéia.Originalmente publicada em 1979, a saga "Brumas de Avalon" era dividida em quatro volumes, os livros contam a lenda do rei Arthur através de sua meia-irmã, a feiticeira Morgana e outras mulheres poderosas da época. A trama mistura elementos históricos e lendas, destacando a influência das mulheres e do paganismo na formação da Bretanha.Além disso o universo das "Brumas" contêm sub-tramas com reencarnações de diversos personagens desde os tempos da mítica Atlântida que planejou Avalon como uma forma de manter sua sabedoria presente no mundo e muita...muita magia....tais idéias trazem uma sutíl influência dos trabalhos da magista e ocultista Dion Fortune.Durante o começo dos anos noventa tive a oportunidade de ler esta "saga", com os livros devidamente emprestados de alguns parentes e fiquei fascinado com a vivácidade dos personagens e o roteiro bem amarrado.Naqueles primórdios, bruxaria era um assunto perdido e nem a Márcia Frazão tinha publicado seus primeiros livros por aqui.Então, a gente misturava aquilo que lía na Bradley com algo que tivesse uma ressonância semelhante...no meu caso, eu lía alguns livretos de um tal Garret Knight e as dicas dele acabaram me levando à alguns livros importados do tipo pocketbook que conseguí comprar juntando minha mesada no "Sebo do Messias" lá no centro de São Paulo...foram alguns romances da tal inglesa chamada "Dion Fortune" - suas melhores obras foram os romances Moon Magic e o Sea Priestess...De alguma forma as sementes deste artigo foram plantadas alí e recentemente voltei minha atenção para o tema devido a leitura de "Aleister Crowley & Dion Fortune: O Logos do Aeon e a Shakti da Era" do Alan Richardson  lançado no Brasil pela Editora Madras.

Pelo meu tom "pince sin rire" sei que a máxima da convivência em diversos reinos implica uma certa cordialidade, justa-medida, doses razoáveis de bom-senso e alguma afábilidade.Alguns praticantes da religião Wicca - enquanto a Bruxaria Moderna ou Religião da Deusa - ficam de cabelos em pé quando ouvem referências a obra ficcional "Brumas de Avalon" de Marion Zimmer Bradley.Prontamente colocam-se a denunciarem imposturas e pequenas pragas aos conteúdos por lá apresentados.Outros ainda assumem uma aparente distância emocional e razoável flexibilidade contando como se apaixonaram pela bruxaria e também pelo o ciclo Arturiano ao lerem os escritos de Bradley.Destes, há aqueles que reconhecem que a obra é uma mera ficção e que sua prática religiósa ou mítica na Bruxaria é outra coisa - embora alguns admitam que ao lerem as "Brumas de Avalon" sentiram-se inspirados a buscarem e se envolverem mais com a "Antiga Arte".Lógicamente apreciar uma obra ficcional não capacita e nem torna alguém um praticante de bruxaria, druidismo, xamanismo ou mesmo da Cosmovisão Vampyrica.

Existem autores de ficção inspirados cujo a prosa e os conteúdos despertam a sensibilidade e o imaginário em busca de novos horizontes.Podemos aí pensar em Tolkien, H.P Lovecraft, Anne Rice, Monteiro Lobato, Jorge Luis Borges, Giulia Moon e muitos outros nomes que ostentam tal "dom da escrita" e uma ótima prosa - capaz de cristalizar imagens em nossos inconscientes, dado o seu lirismo.Encontramos em certas obras o que podemos chamar de "gatilhos", alguns são propositais pois o autor pesquisa a fundo certos temas e faz citações mesmo que de forma fantasiósa a conteúdos factuais da magia, do ocultismo ou simplesmente da dimensão mítica - ou da realidade não-ordinária.Um dos casos mais interessantes foi estudado por Kenneth Grant (Magista e Ocultista Britânico) e envolvia as ligações das prosas ficcionais do norte-americano H.P Lovecraft e o magista britânico Aleister Crowley - que pode ser lída na obra "O Renascer da Magia" de Kenneth Grant, lançada no Brasil pela editora Madras.As vezes existem circunstâncias em que o "oculto" adentra ao tema sem ser convidado, como isso acontece pode ser explicado de milhares de formas - e fugiria ao âmbito deste artigo.Encerro este parágrafo cogitando que em ambas as situações, de forma objetiva ou subjetiva, a linha de influências é tênue - não sabemos se é a prosa ficcional que adentra ao ocultismo ou se é o tal que adentra.Mas as influências permanecem no imaginário e no coração de leitores de ambos os lados - e aguça ainda mais a chama da criatividade e o trânsito entre mundos...mesmo que as vezes apenas como méro combustível e propulsor e não como algo própriamente da trilha espiritual per se...

Podemos especular que é mais ou menos assim - em diferentes graus - que os conteúdos de Dion Fortune se mésclam na prósa ficcional de Marion Zimmer Bradley.Talvez por isso que muitas leitoras e leitores de Brumas de Avalon encontrem em suas entrelinhas, inspirações, influências e desenvolvem bons argumentos ou idéias jurando de bom-coração que há naquelas páginas um "Chamado das Florestas"... só  que tal chamado não é exatamente a voz da Deusa Wiccaniana - ou Grande Mãe - ele vem na voz da obra e da vida da magista e ocultista britânica Dion Fortune - e talvez ainda de sua mentora que também apresentaremos neste artigo.Sem dúvida tal "chamado", encontra ressonância no lírismo e beleza da "Deusa Branca" de Robert Graves, que traz através da poesia e da suavidade tal chamado arquetípico e poderoso.Ainda assim, não foi exatamente uma surpresa constatar durante a pesquisa deste artigo que a conexão nas Brumas de Avalon entre a sabedoria de Dion Fortune e as belas letras de Marion Zimmer Bradley tenha sído percebida por outros também.

Diana L.Paxson
Segundo a  autora e pesquisadora de livros neopagãos Diana L. Paxson (também meia-irmã de Marion e colaboradora de suas obras) os aspectos místicos da lenda Arturiana utilizados nas Brumas de Avalon vinham diretamente dos escritos de Dion Fortune.Existindo até mesmo a possíbilidade ficcional de que as personagem Vivian Le Fay dos romances de Dion Fortune era a inspiração - bem como a progenitora e descendente - da personagem Morgana criada por Bradley.Sem nos esquecermos que ambas as personagens nas mitologias de cada uma das autoras eram tão vívidas que até pareciam ser o próprio alter-ego de cada uma delas."Como Lestat foi para Anne Rice..." Sem dúvida a obra "Glastonbury Avalon of the Heart" de Dion Fortune pode ter sído a mais evocativa e relevante inspiração de Marion Zimmer Bradley.

NAS ENCRUZILHADAS DE GLANSTOSBURY


Sei que nem todas leitoras e leitores deste artigo estejam familiarizados com nossas duas protagonistas, então vamos apresentar um pouco de cada uma delas nos próximos parágrafos - e falaremos desta estranha encruzilhada atemporal onde ambas se encontram neste artigo.E porque não situarmos este ponto como a própria Glantosbury (no condado de Somerset, próximo a Bristol) ao Sul da Inglaterra?Considerada por ambas em suas respectivas épocas como a própria Avalon ou o portal para a tal ilha sagrada...alguns dos eventos mais relevantes da Saga Brumas de Avalon acontecem exatamente alí.E adivinhem quem não mantinha um sólo sagrado ou um templo (ou ainda um espaço de desenvolvimento humano) exatamente lá - a própria Dion Fortune - que inclusive serviu de palco para grandes ritos e descobertas de sua trajetória tendo trabalhado a exaustão todo o misticismo Arturiano e os lugares de Poder alí presentes - décadas antes de Bradley escrever sobre tudo isso.

A lendária torre do "Tor" em Glanstobury
Contam que Dion Fortune explorava psiquicamente as ruínas da catedral e a sombra do "Tor"(que inclusive você pode conferir nas fotos que ilustram o artigo).Segundo Alan Richardson na obra "Aleister Crowley e Dion Fortune:O Logos do Aeon e o Shakti da Era (Ed.Madras) sabemos que  Dion teve seu primeiro e mais dramático contato com a realidade não-ordinária exatamente alí naquela região.Sem dúvida leitoras e leitores das Brumas de Avalon(escrita quase seis décadas depois!) rapidamente irão tecer interessantes analogias sobre esta afirmação.Existe um livro de Dion chamado "Glastonbury Avalon of the Heart" que poderia ser uma das principais influências de Bradley - mas que encontrava-se esgotado durante a escrita deste artigo - cujo a leitura poderia ser salutar e amplificadora para uma melhor análise das influências e inspirações de Bradley na obra de Dion.

No ano de 1921 Dion Fortune teve grandes revelações espirituais nesta região chamada de Glantosbury - abordaremos elas com mais detalhes adiante neste artigo.Mas referente ao "Tor" de Glantosbury (leitores de Bradley segurem-se nas cadeiras) para Dion e seus guias espirituais tais montanhas eram os seios e as torres os mamílos cheios de leite de uma vasta Deusa Adormecida, que em dias bons as energias dos mundos interiores esguichavam até a atmosfera como uma fonte.E nos outros dias irradiava uma aura de ameaça...em volta da Abadia e da colina localizava-se enormes imagens de um zodíaco primitivo tudo amplamente estudado e apreciado no solar de Chalice´s Orchad propriedade da própria Dion ao sopé daquele solo sagrado...as portas da eterna "estrada verde"para além dos véus, rumo a realidade não-ordinária... Nos escritos de Dion Fortune e Marion Zimmer Bradley fácilmente percebemos a sabedoria céltica e também dos druídas sendo apresentada em termos de notável ambiguídade.Inexistindo o "bem" e "mal" ou a "dicotomia", prevalescendo uma fusão entre luz e escuridão, natural e sobrenatural, consciente e inconsciente.Específicamente para Dion Fortune haviam três caminhos inspiradores para a Glantosbury ou Ilha de Vidro Druídica...bem como também havia o caminho da estrada de ferro que permitia o acesso a região...

Dion, Marion & Diana:
Dion Fortune, Marion Zimmer Bradley & Diana L.Paxson

Dion Fortune
Dion Fortune era o "nome de plume" da galesa e sagitariana Violet Firth, que nasceu em uma simpática cidadezinha cujo o nome podia ser traduzido como "Dragão" no ano de 1890.Como era de se esperar alguns circulos ocultistas insinuaram que Violet era uma "filha-das-fadas" (tipo Sookie, no seriado True Blood) Desde sua infância já falava sobre visões da Atlântida, acolhidas amorósamente por uma família apreciadora do movimento chamado Ciência Cristã - acreditavam que certos aspectos da mente em consonância com Cristo trazia cura para muitas doenças.Os avós de Violet eram donos de uma cadeia de hotéis-spa que desenvolviam tais tratamentos.Muito pouco é conhecido de sua vida nessa época, sabemos que suas primeiras poesias foram publicadas na adolescência nos jornais deste peculiar movimento cristão e posteriormente em revistas mais abrangentes britânicas - sendo muito elogiadas pela sensibilidade e criatividade.Nelas encontramos elementais, espiritos e a própria natureza.Foi uma afiada jovem escritora de prosa e ficção. Posteriormente foi estudante e praticante de psicologia, integrante da Golden Dawn e posteriormente a fundadora da Fraternity of Inner Light.Também foi autora de incontáveis obras ocultistas e uma grande magista, envolvida com a as artes da cura e os combates astrais contra a invasão nazista nos tempos da Segunda Guerra Mundial.No decorrer de sua trajetória na magia, ela se recordou de inúmeras outras encarnações nórdicas, cátaras e egípcias.Seu principal "motto":É preciso conhecer para poder servir - é uma referência até os dias de hoje.Deixando de lado os tradicionais embates do gênero, existem menções que a wiccaniana Doreen Valiente particularmente foi uma apreciadora e muito influenciada nos escritos, nas obras e na vida de Dion Fortune.Violet faleceu ao meio da casa dos cinquenta anos vítima de leucemia - a lenda de Dion vive até hoje.

Marion Zimmer Bradley
Nossa outra protagonista deste artigo é a norte-americana Marion Zimmer Bradley - quando viva foi escritora e editora, muito lembrada por ter sído a "mão gentíl" que auxiliou muitos dos jovens escritores de ficção científica do seu tempo.Sempre abrindo espaço para personagens e obras dos mais variados gêneros sexuais, foi também considerada criadora da ficção científica feminista - por imprimir como ninguem o tom da voz feminina no imaginário coletivo...Nascida em 1930 na cidade de Albany - nos tempos da Grande Depressão Econômica que assolou o país.Sua infância foi pobre e sem tempo de receber uma educação esmerada, rapidamente começou a trabalhar e aos 16 anos ganhou uma máquina de escrever de presente de aniversário da sua mãe.Ainda sem tempo para "viagens míticas" profissionais passou a escrever ficções sensacionalistas para sustentar a casa e ajudar a família.Tendo casado cedo, nos anos cinquenta sustentava a casa vendendo histórias de ficção, sexo e de místério para grandes revistas.Já na década de sessenta passou a escrever romances góticos para poder sustentar um curso universitário.Morou boa parte de sua vida em Berkeley na Califórnia.No final dos anos setenta sua obra "As Brumas de Avalon" foi lançada e figurou como Bestseller por meses nas listas dos grandes jornais.Nestes tempos já era reconhecida dos trabalhos na ficção e já era considerada uma especialista em mitologias de civilizações pré-cristãs. Na década de 1980, sua recriação da saga de Rei Artur em As brumas de Avalon levantou polêmica, pois os arturianos mais ortodoxos não aceitavam o que chamaram de visão feminista da lenda. Traduzida em diversos idiomas, Marion Zimmer Bradley morreu em 1999, aos 69, no auge da fama.

Uma das mais conhecidas
obras de Diana L.Paxson
Fica difícil falarmos de Marion sem falarmos de sua meia-irmã e colaboradora Diana L. Paxton; ela é autora de mais de vinte livros, além de três coletâneas de contos, tendo como tema a magia. Foi colaboradora de Marion Zimmer Bradley em A casa da floresta e A senhora de Avalon. Depois da morte de Marion, desenvolveu suas ideias em A sacerdotisa de Avalon, Ancestrais de Avalon e, mais recentemente, em Os corvos de Avalon.O que muitos desconhecem é que seu campo de especialidade resíde no paganismo Nórdico e também em diversos movimentos Wiccanianos.Atualmente além de se apresentar como harpista vem desenvolvendo a Saga "A Sacerdotisa de Avalon" seguindo os passos de sua criadora.

Desde a série ficcional Darkover, Marion Zimmer Bradley aprendeu como nínguem a fazer uso dos conceitos da re-encarnação como ferramenta constante de suas narrativas - e de forma aliás bem superior a da média de autores ficcionais ou religiosos do gênero.Na ampla Saga das Brumas de Avalon os personagens Viviane, Morgana, Kevin -O Bardo, Mordred, Igraine e Uther - já se conhecem de encarnações passadas que são apresentadas em outras obras da autora e de sua meia-irmã.Segundo a Wikipedia a melhor sequência de leitura de Bradley - ou pelo menos a que encadeia melhor os conteúdos de sua saga arturiana, fica sendo "A Queda de Atlântida: A Teia da Luz e A Teia das Trevas", "Os Ancestrais de Avalon", "Os Corvos de Avalon", "A Casa da Floresta", "A Senhora de Avalon", "A Sacerdotisa de Avalon" e "As Brumas de Avalon" são melhor compreendidos se lidos na ordem apresentada.Na seqüência apresentada, cada livro completa o outro, criando uma mitologia da criação de Avalon, através da reencarnação de personagens importantes, desde da Atlântida até a época do Rei Artur.Gosto de pensar que isto pode ser uma influência de longa data dela provocada pelas leituras dos escritos de Dion Fortune - bem como da sua meia-irmã e colaboradoa Diana L.Paxson que publicou excelentes obras sobre religião nórdica e runas.Tanto nos escritos como na sua vida, Dion Fortune sempre mencionou o tema do resgate do conhecimento vindo de suas vidas anteriores enquanto sacerdotisa da Atlântida e posteriormente de Avalon - priorizando o conhecimento resgatado e não tanto o fato de ter tído outras vidas, nem sequer as tais como validação relevante para a atual.Ela também foi uma das primeiras autoras a abordar a questão do vampirismo psiquíco e derivados de forma ampla, aberta e autobiográfica no livro "Auto-Defesa Psiquica".Que particularmente considero infâme e se ela era tão fácilmente vulnerável quanto o que foi descrito por ela mesma alí - creio que ela mereceu ter sído vilipendiada e atacada sem piedade como relatou em seu próprio livro.Se não fosse pela Ordem da "Golden Dawn" - mais especificamente a Loja Alpha Et Omega na vida dela - ela teria tombado alí mesmo...

A MISTERIOSA MADAME MAIYA:

Quem foi supramencionada tutora de Dion Fortune?Sabemos que ela foi o modelo e a inspiração da Viviane Le Fay dos romances de Dion - principalmente "The Sea Priestess", como é insinuado por Alan Richardson e talvez por Gareth Knight - e posteriormente inspirou a Morgana de Bradley.Tal musa respondeu em vida pelo nome de Maiya Beauchamp, do primeiro casamento se tornou Maiya Curtis Webb e com o segundo casamento Maiya Tranchell Hayies.Seu nome de batismo foi Mabel Gertrude Beauchamp, nasceu em fevereiro de 1876 e teve outros dois irmãos.Seu primeiro casamento foi com o Doutor John Curtis Webb (especialista em eletro-terapia e nos primeiros aparelhos de estimulação elétrica) no final de junho de 1898 em Londres.Nestes primeiros anos frequentavam a loja Alpha et Omega da Golden Dawn.O primeiro casamento terminou por infidelidade do bom doutor em 1927.Já no ano seguite ela casou-se novamente com o psiquiatra Edmund Duncan Tranchell Hayes que era alguns anos mais novos do que ela.O Ocultista e escritor Israel Regardie conta sobre muitas visitas que realizou ao casal na década de trinta.Segundo uma carta de autoria da própria Maiya a uma discipula  de Crowley, este casamento já não ía bem por volta de 1934 - onde ela contava sobre sua nova casa com 3 empregados e 5 cães enormes.Infelizmente, Edmund morreu cedo, com apenas quarenta e nove anos em fevereiro de 1940.E Maiya viria a falecer em dezembro de 1948. Ninguem mais falaria sobre ela, se não fosse por um curioso fato ocorrido no ano de 1966 - uma caixa que ela havia enterrado nos jardins de uma colina  com seus pertences mágickos dos tempos da Golden Dawn ter ressurgido na praia de Sussex na Inglaterra - depois que a tal colina se desmanchou.Um presente da sacerdotisa do mar para o mundo moderno...

O livro que já inspirou dois artigos deste Blog

Vamos agora ao fato estranho deste artigo, não conseguí localizar nenhuma foto sequer dela - não há imagem dela em domínio público, se algum leitor ou leitora econtrar por gentileza compartilhe e cite a fonte.Sua descrição mais famosa era que vestia véus que lhe cobriam a face, totalmente paramentada com os trajes ritualísticos e sempre adentrava os ritos de Dion Fortune de forma anônima, sentando-se nas cadeiras do leste - destinadas a cura e regeneração - sempre chegava depois que se iniciavam as atividades e partia depois que todos íam embora.Mas afinal, o que sabemos desta grande mulher que serviu como o modelo da Sacerdotisa do Mar e posteriormente influenciou a criação da heroína Morgana de Bradley nas Brumas de Avalon?

Baseado na obra de Alan Richardson sabemos que Maiya poderia ter chefiado a Loja Alpha et Omega depois da morte do romancista J.W.Brodie-Iness - conforme ela confessa a Jane Wolfe (discipula de Crowley nos tempos de Cefalu) em uma carta.Segundo consta Mayia teria conhecido Dion ainda criança pois haviam sido vizinhas em Londres.E desde então reconhecia naquela frágil menina o potencial para se tornar uma ocultista e uma grande mulher.Talvez Maiya tenha conhecido Dion, devido aos problemas de saúde mental que ela teve nesta época e quem sabe, algumas eventuais internações...sem nos esquecermos de que esta foi a área de atuação dos dois maridos de Maiya.Acreditamos que os encontros de ambas e o próprio aprendizado de Dion nas artes da Golden Dawn tenham sído ministrados por Maiya.Sabemos que ela atuava como uma vigia dos transes mediúnicos de Dion, para que ela não fosse incomodada por espíritos inferiores (ou derepente KakhonoDaemonos).Estes trabalhos eram conduzidos diligentementes, registrados e supervisionados para assegurar que eram contatos legítimos e não meros devaneios imaginários.A própria Dion inspecionava tais registros com viés Freudiano para assegurar não estar respondendo a ânsias e aspectos subconscientes dos próprios desejos.

Foto do jornal britânico de quando foi encontrado o
Baú de Maiya em uma praia de Sussex
No ano de 1921, Maiya e Sarah(a mãe de Dion) e Frederick Bligh Bond, assistiram a mediunidade de Dion contactar seres que se apresentaram como Vigias de Avalon.Neste ponto veremos uma das elaborações ocultas mais atraentes de Dion Fortune - e certamente toda a base que viria a influenciar e magnetizar as páginas da ficção de Marion Zimmer Bradley décadas mais tarde.Neste momento teremos Dion Fortune revelando com sua mediunídade uma antiga sociedade de guardiões espirituais residentes em Glantosbury, bem como uma linhagem invícta daqueles que descendiam deste poder místico - que vinha das raízes raciais da alma da Bretanha.Além disso ela contou sobre o poder que provinha da abadia original fundada por José de Arimatéia, principios de arquitetura cósmica e a verdadeira natureza dos druídas.Isso ainda sem mencionarmos um culto a uma serpente realizado pelas tribos do norte e um potente culto solar instaurado alí há priscas eras.Muitos outros simbolismos da região foram abordados anteriormente neste artigo.Tais conteúdos desvelados nesta época rapidamente integraram o programa de práticas e estudos da "Fraternity of Inner Light" de Dion Fortune.Neste intenso trabalho ritualístico vemos a utilização dos arquétipos de Avalon como Rei Arthur, Morgana Le Fay, Merlin, estranhos Santos Celtas, a mitologia do Santo Graal e o famoso Espinheiro Álvar daquela região.As encruzilahdas entre os mundos das fadas Sidhes e dos antigos deuses e deusas da Grã-Bretanha - que segundo Dion Fortune - eram originários da Atlântida, fugitivos de um grande cataclisma uma vez mais acessavam a Inglaterra Contemporânea - e graças a Dion tais arquétipos alcançaram status universal e certamente uma metodologia que permitia a praticantes de todo o mundo acessarem aspectos interiores com as Divíndades Celtas e Pré-Celtas tais como Cerridwen, Arianhord, Branwen, Morrigan e outras.Sem dúvida Dion Fortune mostrou como acessar estratos de consciência interiores e não exatamente deídades geo-políticas.Talvez o poeta e mago W.B.Yeats, um dos mais proeminentes praticantes destes contatos sentísse orgulho dela...Se Dion Fortune re-abriu esta via noturna, certamente Marion e sua meia-irmã e colaboradora Diana pavimentaram e solidificaram a estrada com sua extensa obra ficcional e inspirada nas descobertas de Dion.

ATRAVÉS DAS MARÉS...

"A Mitologia confirma a história.A história constantemente se assemelha ao mito, pois ambos, no fundo, são feitos da  mesma coisa"
J.R.R Tolkien

Seria interessante pensarmos como as descobertas e mesmo as práticas de Dion Fortune foram incorporadas e anexadas ao moderno pensar das práticas do neopaganismo.Posso imaginar influências palatáveis nas obras de Doreen Valiente e mesmo nos escritos de Garret Knight, que de certa forma foram as primeiras inspirações deste artigo.Também deixo um "questionamento" o quanto será que a obra dela não serviu como pano-de-fundo e nunca recebeu o merecido crédito nesta década posterior ao "celtismo" midiático que dominou este meio-social desde os anos noventa.Posso imaginar que a re-leitura e quiçá uma apropriação discreta da obra de Dion Fortune tenha se dado na década de setenta de forma mais aberta, mas tenho certeza que o "boom" aconteceu com o lançamento de "As Brumas de Avalon" de Marion Zimmer Bradley.Até mesmo o "Vampiro Lestat" de Anne Rice publicado uns poucos anos depois, incluiu menções a bruxas celtas durante o namoro do personagel título com o personagem Niki.Em meados de 2008 escreví sobre os anos setenta e o neopaganismo que:"(...)É fato que os primeiros passos da vertente politeísta/panteísta da Subcultura Vampyrica, que chamamos de "proto-subcultura Vampyrica) serão dados entre os anos de 1972 e 1975.Haverá naturalmente inspiração e aproximação nos conteúdos informacionais disponíveis no período, bruxaria tradicional, Rosacrucionismo, Golden Dawn, Wicca, Druidismo, Carlos Castãneda aliados a bastante publicações sobre mitos romenos e vampirescos - ou temas afins (esta questão é explorada detalhadamente em meu primeiro livro).O fato mais interessante é nesta base, vieram a existir vampyricos e vampyricas politeístas ou panteístas e novos agrupamentos baseados inteiramente ou parcialmente no círculo inicial.(...)"Infelizmente alguns dos segredos desvelados ou afirmado pelos guias de Dion Fortune sobre o Ciclo Arturiano, Glantosbury e afins  cometeram algumas gafes históricas - e o assunto rendeu bastante neste artigo que escreví entre os anos de 2007/2008 - que também explora a origem do Druidísmo Moderno.O assunto ainda se desdobrou de forma interessante neste outro artigo daquela época.

Brumas de Avalon na TV
Nos anos quarenta, cerca de duas décadas depois dos intensos contatos experienciados por Dion Fortune e sob a guarda da misteriosa Maiya Tranchell Hayes, temos a Fraternity of Inner Light bastante solídificada com sua prática mística baseada no Ciclo Arturiano.Na obra “The Secret Tradition in Arthurian Legend” (originalmente lançada pela Aquarian Press e posteiormente pela Skylight Press) veremos bases que poderiam ser as que permitiriam a explosão do Ciclo Arturiano e seu misticismo no meio neopagão e ocultista.Provavelmente aí perceberemos o nome de Margaret Lumley Brown e muitos outros.Sobre a enigmática Maiya, mentora e tutora de Dion Fortune temos o episódio já contado aqui de quando seus apetrechos dos tempos da Golden Dawn foram reencontrados no baú a beira do mar.Existem fotos publicadas em jornais desta descoberta.Mas o paradeiro das peças permanece novamente um mistério.Baseado em alguns contatos que tive durante a escrita deste artigo, imagino que nas próximas três décadas esta enigmática senhora ainda trará algumas novas revelações.Segundo o autor Alan Richardson o trabalho na fórmula Arturiana de Dion Fortune foi completada por ela depois de sua morte, graças ás médiuns Ann Grieg e Margaret Lumley Brown do seu círculo interno - encerrando assim o ciclo iniciado junto a Maiya. Atualmente Marion Zimmer Bradley já é falecida, e sua obra é continuada pela autora de livros dedicados ao neopaganismo chamada Diana L.Paxson que administra e organiza a franquia e a saga de Avalon - respeitando o ethos e os parâmetros de sua criadora.

Quando pensamos nas escritoras que desenvolveram o gênero ficcional alinhavado com o sabor do oculto e da magia e que as obras tiveram alcance mundial, fica difícil não apontarmos Dion Fortune, Marion Zimmer Bradley, Anne Rice e atualmente Charlane Harris.Como atualmente vivemos nos dias em que é anunciado a sequência da Saga Star Wars além do episódio VI...Fico esperando pelo momento quando "As Brumas de Avalon" e todo o universo das publicações associados irão ganhar um tratamento igualmente a altura e com a merecida densidade e investimento dos grandes estúdios, pois o malfadado seriado do ano de 2001 vagamente inspirado nos livros deixou muito a desejar - só foi salvo mesmo pela Angelica Huston.

Ao longo deste artigo pudemos apreciar um poderoso encadeamento entre Arte e Magia, deveras mais complexo e amplo do que estas poucas páginas poderiam conter.Uma intrigante encruzilhada bretã onde não podemos dizer claramente onde começa a magia e onde começa a prosa ficcional.Podemos inferir que uma senhora misteriosa chamada Maiya, tutorou uma jovem aprendiz que víria a se tornar uma grande ocultista e magista conhecida como Dion Fortune; a prosa e a magia desta vigorósa dançarina dos mundos re-viveu e universalizou antigas deusas e deuses - estes imortalizaram na arte sua tutora - e posteriormente se infundíram pela vida e pelos escritos de uma talentosa escritora de ficção anos depois e hoje ainda encontram sequenciamento e desdobramentos nas mentes e nos espíritos de muitos outros.Neste momento, muitas bruxas e bruxos juram de bom coração que há sim alguma coisa alí nas "Brumas" de Bradley que fala diretamente ao seus corações e a suas bruxarias particulares.O chamado das brumas...carrega o sotaque inglês de Dion...

Ps: Curiósamente o nome da escritora de ficção brasileira Giulia Moon, não poderia deixar de ser cítado dado o brilhantismo do seu trabalho e as vivênciais descrições de processos alquímicos em algumas obras - bem como suas criações astrais - nos romances da Vampira Kaori...se bem que há dez anos atrás, sua principal criação também foi uma vampira chamada Maya...

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