quinta-feira, 10 de abril de 2014

Um Vampyro olhando a Bruxaria...

Um dia desses, durante uma das incontáveis viagens pelo interior de SP - passei numa cidadezinha onde tinha uma velhinha que mexia com ervas, rezava e benzia quem a procurava com problemas. Todo mundo a chamava de Bruxa. Não me lembro de ter perguntado se ela também amaldiçoava quem importunava aqueles que a procuravam, mas enfim... Na mesma época também palestrei em diversos eventos de bruxas, terapeutas, pesquisadores e etcs - também cheio de bruxos ou pessoas que se afirmavam como tal. Também encontrei por aí nas trilhas da vida pessoas de cultos Afrodescendentes que também eram nomeados como Bruxos e Bruxas entre seus pares - bem como amigos e amigas norte-americanos e europeus que se nomeavam ou eram nomeados como Bruxos e Bruxas - fossem de agrupamentos familiares ou daqueles que nascem por vínculos sociais e afetivos com outros grupos. Notei que em todos os pontos desta curiosa teia sempre rolava um estranhamento "social" - entre muitos deles. 

Quando os tais amigos e amigas deixavam de lado os jargões, as "consciências sociais" e afins - todos compartilhavam de idéias, vivências e perspectivas com bastante convergência. Provavelmente eu observo tal coisa por ter um olhar nômade e um coração feral - e algumas idéias bastante anarco-ontológicas quem sabe. Percebo uma evidente beleza e arrebatamento nos papos e nas idéias que tenho o privilégio de poder trocar e compartilhar com tais pessoas. E isso é muito legal. É bacana deixar de lado o "jargonês" e o "léxico" - parar de discutir o que é e o que faz tal coisa a tal coisa e partir para o "nossa, que legal eu também curto isso" ou ainda "poxa, já víví algo muito parecido" - e a beleza dos enlaces afetivos e de irmandade que brotam entre pessoas afins. O que importa se crê em uma lei triplíce ou na colheita das consequências daquilo que semeia? Penso que vivência, como se faz para se resolver tais coisas e amor naquilo que se escolhe caminhar sejam mais temas mais interessantes e atraentes para se conversar entre afins - do que debater quem é e quem não é.Uma conversa expontânea e não dogmática é muito mais atraente do que se repetir fervorosamente o que alguma "cartilha" ou "cantilena" do que pode e do que não pode...

Claro que eu sei que em termos de história, antropologia, psicologia, sociologia há muita coisa escrita e padrões de identidade que delineiam o que é e o que não é Bruxaria - bem como um amplo mercado literário e comercial sobre o tema com bastante material publicado e perspectivas diversas - e que tudo isso é muito importante para muita gente.Mas noto que tudo este conteúdo aí vem a despencar em visões modernas ou pós-modernas - que são um pouco "alienígenas" para estudarem algo definitivamente pré-moderno.Como poderíamos esperar que as chamadas ciências sociais que por exemplo tem sua base no Materialismo Histórico Dialético Marxista poderia se dirigir com alguma isenção e pontualidade a algo que sua ideologia já postula como ópio do povo, alienação e digno de pena por sua pobreza cultural e inutilidade para o todo (ou estado).Vou deixar de lado outras ainda que abordam estes temas como se tudo fosse algo inacessível, inalcançável e inequvocadamente estranho demais para o "civilizado" - ou sujeito a jogos de palavras risíveis que apenas acrescentam vácuo ao vazio incessante acadêmico de repetir citações e não produzir novo conteúdo sobre o tema estudado - e facilmente desmantelados por um olhar mais atento e alguma espirituosídade mais ígnea.

Com tudo isso que descreví no parágrafo anterior - apenas posso concluir que a resposta a minha pergunta é simples, não é possível esperar algo que sacie a sede de conhecimento que nos guia - apenas lendo ou ouvindo de orelhada o que dizem aqueles que não vivenciam ou integram um contexto que se propõem a compreenderem. Como vamos esperar que um pastor evangélico de alguma denominação ultra-radical possa falar bem de algo que sua base teórica e credo postulam como algo inferior a ser dizímado. E o pior de tudo, como podemos esperar viver bem entre afins, se dentre um milhão de possibilidades de escolhas do que podemos fazer, pensar, escrever, dialogar, compartilhar - preferimos debater sobre o que é e o que não é - sobre fragmentos e perspectivas observadas externamente ao que integramos e vivemos - ao invés de falarmos daquilo que vivemos naquele contexto? Se alguém inclusive quiser responder tal pergunta para mim use os comments abaixo desta postagem.

Cansado de tantos dilemas, um dia perguntei para um amigo índio, sobre tudo isso, afinal quem era o que ou o que valia mais nestas questões de bruxaria e afins - e de forma expontânea e ligeira ele respondeu: 
Na minha tribo só é pajé quem você procura pra essas coisas espirituais e o tal resolve o problema de uma vez por todas com fundamento, sabedoria e prática. Achei uma resposta sensata e passei a caminhar com esta idéia - colocando uma "estaca" nestas questões que consumiram muito tempo da minha presença e imortalidade! Vv--vV
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* Futuramente escrevo algo sobre as velhinhas do bairro do Cambucy do começo do século XX e suas bruxarias, bençãos e a fusão de um cristianismo místico, com elementos bruxos italianos e portugueses - e posteriormente com atributos afros.
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