quinta-feira, 7 de junho de 2012

Sobre a severidade, os túneis e atalhos na árvore da vida...


Sobre a severidade, os túneis e atalhos na árvore da vida...Um texto de Lord A:.

Talvez a escuridão – ou a luz negra – seja apenas aquilo que não deseja se envolver e ainda prefere se manter a parte da criação em si – a mão esquerda do Deus. Se tomarmos emprestado o conceito cabalístico do Zimsum de Isaac Luria, veremos que a palavra é apresentada como "concentração", mas também é associada com "distanciamento ou retirada". Neste caso "Ain Soph" ou "Deus" para criar o universo, primeiramente isolou ou criou um vácuo nele mesmo – para assim poder manter-se fora da própria criação. Para a consecução desta tarefa, a força utilizada é a de Geburah ou Severidade – adequada para delimitar e delinear espaços e fronteiras.


Então criou-se um espaço onde agora Deus não era. Sem este limite, tudo seria novamente engolido por Deus. A partir daí haveria objetos individuais. Com esta potência ativa, foi iniciado o Zimsum. Ainda assim Geburah – por seu aspecto destruidor é a força por detrás do "mal", assim como é o princípio que facilita a criação e permite a existência externa a Deus – e cada forma poderá existir por si. Mundos perfeitos não podem ser criados, pois seriam o próprio Deus e este não pode duplicar a si – mas podem ser criados por Ele limitando alguns aspectos. Assim o "mal" ou "Geburah" é um aspecto inerente da criação – o desbalanço, a imprevisibilidade e aquilo que límita sempre existirá até nos mundos mais sublimes. (...) Os antigos cabalistas espanhóis diziam que o Universo havia começado quando Deus decidiu fugir da solidão do cosmos e dar vazão ao seu poder criativo. A partir daí foi criado tudo que existe.O rabino Isaac Luria, porém, ofereceu uma resposta diferente, criando o conceito de Tzimtzum – contração – grosso modo, Deus foi compelido a dar espaço ao mundo abandonando uma região dentro de sua infinitude. Ao se contrair, ele deixou um lugar primordial para o mundo se desenvolver. Portanto, segundo Luria, o primeiro ato de Deus não foi um passo para fora, mas para dentro. Essa é uma idéia complexa, mas o ponto é – o tzimtzum foi um exílio de Deus dentro de si mesmo. No vácuo criado, Deus lançou um raio de luz que foi canalizado pelos vasos. Mas à medida que a emanação progredia, alguns vasos não resistiram à força da luz e se estilhaçaram. Segundo Danie C. Matt – a maior parte da luz voltou para sua fonte infinita, mas a restante caiu como centelhas, que ficaram presas na existência material. Portanto, a tarefa humana é libertar as centelhas para restituí-las à divindade. Esse processo de tikun – reparo – é cumprido por meio de uma vida de santidade. Na visão luriânica, as ações humanas favorecem ou impedem o tikun, apressando ou adiando a vinda do Messias. De certo modo, o Messias é moldado por nossa atividade ética e espiritual – o que não deixa de ser um paradoxo. Como disse o escritor Franz Kafka, – o Messias só virá quando não for mais necessário. 
( Revista Super Interessante, Edição Especial Cabala).

Um aspecto relevante da obra de Luria e do Zimzum é a força que, derramada da tríade supernal, arrebenta os outros seis vasos da criação – cada um uma marcação abrilhantada e destacada de aspectos formados da própria criação – a sexta delas, porém, não é tão gravemente afetada. Mas os pedaços em número de 288 cairão através do abismo e criarão outros mundos misturando o puro e o impuro. Enfim, os cascos de sementes também se arrebentarão para o estabelecimento da vida. O mal e o bem se misturarão indistintamente, talvez como uma forma de purificação e redenção. O resultado será a existência de um "antimundo" para onde este "mal" seria banido.

Novos vasos surgiram após este processo e o "outro lado" foi criado de tudo aquilo que foi purificado neste lado. Thomas Karlson em sua obra "Qabalah, Qlipoth & Goetic Magic" compara tal processo com o "nascimento" e todos os subprodutos orgânicos gerados por este para oferecer suporte e descartados posteriormente. Cabalistas de todos os tempos, comparam estes "descartados" com os Reis de Edom, que nunca foram enfraquecidos por qualquer fraqueza sendo o degrau necessário para se criar um mundo puro. Não podemos esquecer que o mesmo termo foi usado por alguns judeus para descreverem reis católicos durante a Idade das Trevas.

Unidade é o que rege o lado conhecido. Multiplicidade e diversidade o outro lado. O status ontológico do mal ou da escuridão precedem a ordem e a claridade – assim como a absência precede a existência. A provação e o colocar à prova é a expressão do outro lado em suas circundantes chamas sem fim. Historicamente o Sitra Ahra era o país que cercava os judeus e considerado por eles como "exilado" pois estava fora do pacto étnico deles com Deus. Logo, o confronto era deslocado de planos sefiróticos e aconteciam aqui mesmo na Terra, onde a purificação devia ser levada à cabo numa batalha espiritual e consequentemente política.

Conforme vemos no tratado Gallya Razza do século XVI a idéia era que o judeu ou cabalista tinha que desenvolver pureza e santidade em meio à impureza do nosso mundo.O Sitra Ahra tinha a função de testar e provar as almas. Se elas caíssem em tentação e pecado, reencarnavam como animais por até três vezes – se falhassem na terceira viravam poeira cósmica. Tínhamos um purgatório punitivo e purificador.Certamente os leitores mais atentos se recordarão da postura das "Fúrias" durante o julgamento de Orestes, que é bastante claro e sintético para abordar um "reino de severidade inflexível" – ou sem "bondade" alguma. Assim como os Gnósticos, aguarda-se pelo Messias que descerá ao "Abismo" e resgatará as luzes caídas...

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