quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"Vamps" observam o preconceito

Lord A:. fotografia de
Fernanda Menezes

* Sim, um novo texto conforme prometí anteriormente.Meu "Blog Oficial" não é apenas um espaço de divulgação de eventos e publicações...Não deixem de curtir meu programa de webradio toda quarta as 21h em www.voxvampyrica.com


Um texto de Lord A:.



Recentemente observei que alguns "Vamps" conhecidos sofreram uma situação de preconceito, intolerância e proselitismo da parte de um suposto religióso monoteísta.Vale ressaltar que a maior parte dos "Vamps" em questão eram integrantes da vertente fashionista do nosso meio-social.Uns poucos integravam a vertente da cosmovisão.Todos eles vieram me relatar os fatos ocorridos e considerei atraente delinear algumas palavras sobre casos e situações de preconceito - oferecer alguma dica ou têmpero forte para ser combatida ao menos verbalmente, pois não precisamos da agressão física para conquistar nossos direitos.Também, com este texto não pretendo cair em nenhum discurso empobrecido do tipo de "minoria perseguida" tão em voga na corja stalinista da cena alternativa e menos ainda querendo adentrar algum extremismo ou culto ao tótem da vítimismo do malvado patriarcado, que é bem numeroso em algumas vertentes pagãs contemporâneas.

1.Francamente, o visual de "balada" utilizados por Vamps é provocante e instiga demandas e questionamentos sobre alguns dos principais tabús da sociedade que vivemos; tais como o que é viver realmente? a morte; a sensualidade; a androginia; o feral; a sexualidade e o gênero de cada um.São todos temas que objetivamente ou subjetivamente ressoam em nosso meio-social e também externamente a ele.Temos aqui elementos que podem ser traduzidos como "arte corporal" onde a pessoa torna-se o suporte a vestir seus conceitos, opniões e visões do mundo.Um discurso silencioso e sublime (que encontra formas variadas de elegância e de expressão).Logo, se você vai se vestir de "Vamp" encara o tranco tanto na ída quanto na volta do evento em questão.Ou não, leva sua roupa numa mochila e troca antes de ir embora...ou ainda vá de carro ou de taxi.Somos o que somos e não aquilo que algum otário ou otária fala verborrágicamente que acha que somos.

Judicialmente, nossa constituição nos assegura o direito de ir e vir e nos resguarda e permite ações processuais quando podemos comprovar que fomos alvo de preconceito.E a polícia militar dos bairros centrais, das imediações de pinheiros ou da avenida Paulista são bastante respeitosos e cordiais quando temos que requerer sua ação e intervenção.Naturalmente o requerente deve ter algum bom-senso, e conhecer  algumas das leis e saber narrar o acontecido de forma isenta para o policial.Pelo menos funciona assim e de forma eficaz resolver este tipo de questão.

2.Entretanto, não vivemos no mundo perfeito.Muitas vezes teremos que nos defender verbalmente e não confrontarmos com violência física quem nos agride no campo verbal.Evitar o confronto seja verbal ou físico é o principal ponto que você deve ter em mente, sair andando e ignorar é uma efetiva ferramenta de reprovar e não entrar no jogo de agressão verbal do atacante.Simples assim, requer algum "sangue-frio" mas resolve.Afinal, não sabemos o que o atacante tem como intenção ou planos, nem tudo está perfeitamente as claras...

Se por ventura houver a impossibilidade da execução da estratégia anterior - domine o espaço, ataque verbalmente e diretamente nos pontos que possam extinguir o discurso e a postura do ofensor verbal.Não se trata de bater-boca, troca de xingamento ou vulgaridades...e sim de expôr suas idéias e sair dalí de cabeça erguida.O caso mais comum que temos nestes relatos provêm de supostos religiósos que não sabem cuidar das próprias vidas e decidem perturbar a liberdade de escolha, direito-de-ir e vir e projetarem suas fantasias sexuais doentias e processos castratórios sobre terceiros que não se enquadrem na visão de mundo deles.

Tais ações fazem parte de um contexto social das comunidades que eles integram e são reforçados, gratificados e pontuados por agirem desta forma.Logo tire da cabeça seus próprios ideais libertários da revolução francesa, seus opositores não irão mudar e sempre vão se julgar corretos e cértissimos no que estão a fazer.

Muitos deles tem evidentemente o desejo de servirem de martíres, provocarem verbalmente os homens, agredir as Vamps e rotular as mesmas de vadias ou prostitutas e questionar a sexualidade dos meninos.Os tais ofensores torcem e querem ser atacados fisicamente, para assim se enaltecerem de suas supostas virtudes religiosas no confronto com o "mal" - e seus líderes mais provocantemente querem usar manchetes policiais para rotularem vamps, goths e muitos outros como agressores, preconceituósos e perseguidores do seu pobre rebanho...aliás, você já pensou que talvez seja por estas mesmas pessoas ocupando lugares de poder decisório público ou privado que temos poucas casas noturnas, pouco espaço para nossas bandas, literatura e afins?Mas vem cá, no meio disso tudo a "religião" já inexiste e temos um problema social e imediato.

3.Há poucas semanas um simpático grupo de 8 Vamps, sendo integrado por 3 homens e 5 mulheres, todos maiores de idade retornavam de uma balada através dos bairros centrais de São Paulo.Todos eles haviam pago seu transporte, sentavam-se cansados nos respectivos assentos do coletivo - quando passaram a ser ofendidos por um homem que alegava ser pastor.De bíblia na mão, terno e um comportamento comparável ao de uma pessoa completamente surtada - ele citou em benefício próprio e distorcido diversas passagens bíblicas, atacou verbalmente a honra das mulheres chamando-as de prostitutas e vadias e ainda aos homens não poupou impropérios...e no momento de maior exaltação tentou se atracar com um dos Vamps presentes.Felizmente o "Vamp" em questão teve discernimento e sangue-frio se desvencilhou verbalmente do traste - e ainda informou ao ofensor que ele deveria respeitar os outros e se retirar daquele coletivo. Após o ofensor se retirar o clima de bom-humor retornou ao grupo de "Vamps", mas um azedume desta violência gratuíta para com eles ficou por alí.

Resumidamente o elemento identitário mais interessante e vivêncial do monoteísmo dominante reforça valores como a procriação dos casais, criação dos descendentes com transmissão de valores de retidão de caráter, honra e afins, respeito entre o casal e pelos parentes.Olhando de uma premissa "Vamp" compartilhamos de ideais e práticas semelhantes, o que não justificaria qualquer tipo de ataque ou de crítica a nossas vidas pessoais de nenhum lado - vou falar mais sobre isso no item 4.

Outro ponto bem interessante e observável no monoteísmo é que eles também pontuam que todo ser vivo é bem mais do que aquilo que um primeiro olhar pode revelar ou desvelar.Tenho dúvidas que algum "Vamp" poderia tecer qualquer tipo de oposição a esta idéia ou prática.Até mesmo a data láica do "Dia dos VampiroS" tem como estandarte o fomento de campanhas informativas contra o preconceito a qualquer tipo de raça, cor, opção sexual, religião e afins.Vamps, sejam Fashionistas ou da Cosmovisão, apreciam a diversidade e a sabedoria da humanidade.

Olhando friamente uma das principais idéias do judáico-monoteísmo que expõem claramente que seu Deus tem um "plano" que justifica e permite a existência de tudo aquilo que está aqui neste momento.Podemos concluir que até "Vamps" são incluídos neste plano e tem sua função nele - outra premissa indiscutível é que o tal plano de Deus é escrito por linhas tortas ou caminhos misteriósos.O que deveria evocar no seguidores de Deus, pelo menos um "respeito de cavalaria" ou quiçá um respeito da marinha britânica do século XIX:reconhece as diferenças, comenta e crítica entre sí, mas convive respeitosamente com dignidade e não interfere nos assuntos pessoais de terceiros.

Focalizando o olhar nos seguidores de Deus, delineamos a presença do sentimento e da idéia de que Deus e seu Messias representam amor, proteção, abrigo e compreensão universais e oferecem perdão a aqueles que o procurarem por coração e vontade.Perante os valores pontuados sintéticamentente neste parágrafo - creio que o tal ofensor do ônibus e muitos outros que perpetuam suas cruzadas proselitistas por aí, condenando e tentando homogenizar aquilo que não concordam e por consequência desrespeitam - perderam as bençãos ou a guia do seu "Deus".Pois andam a violarem todos os valores mais simples e mais básicos estabelecidos por seu messias e pelo profetas posteriores.

Observando a conduta desregrada do ofensor verbal, descrito nesta narrativa ocorrida em uma linha de ônibus, vemos que o tal pastor não demonstra respeito pela obra que atribue ao seu próprio Deus, definitivamente vem a macular a beleza e o sagrado da criação - que ele deveria exaltar e atrair as pessoas com boa prosa e poesia, mas infelizmente o tal "pastor"com sua conduta egóica, mesquinhas e problemática
deixa muito a desejar e é uma pena que a instituição que ele integra jamais poderá punir exemplarmente a conduta dele naquela manhã.

Hipotéticamente penso que tipos como o tal pastor, apenas enxerguem as coisas como querem enxergar - e  logo se vêm atribuídos em seus delírios de poder a tentarem reproduzir a conduta de uma tribo de pastores nômades, castradores de mulheres e sanguinários envolvidos em todo tipo de golpe militar e pilhagem de alguns milhares de anos atrás - originários de um projeto de limpeza étnica, religiosa e cultural conduzido por um sumério desgostoso com seu povo sumério, que simplesmente reuniu todos os parentes e agregados levou para penarem por mais de quarenta anos no deserto exposto a todo tipo de perjúrio e danação para assistir os mais velhos morrerem e os mais novos serem educados sob uma "nova" tradição" que  pretendia criar uma nova linhagem bricolando Inana e Ereshkigall, de forma despolarizada e distorcida como Deus e um proto-diabo?Será que é este o arquétipo ou ainda o elemento ressonante que se apossa e justifica as atrocidades verbais destes supostos religiosos ofensores de pessoas dos dias de hoje?

"Desde tempos do onça a bricolagem é sinônimo de empobrecimento cultural...e de limpeza étnica, religiosa ou quem sabe da diversidade?"

4. Provavelmente o item 3 eriçou os cabelos das leitoras e leitores mais antigos dos meus trabalhos.Teço críticas e observações sempre pautadas na história e na história da arte.Embora tenha narrado uma situação de desrespeito onde oito pessoas retornavam para casa depois de uma festa bem legal, não pretendo que aqueles que tomam contato pela primeira vez com meus textos ou a ethos "Vamp" fiquem com uma impressão azeda.

Como ressaltei anteriormente no item 3 qualquer pessoa com um mínimo de bom-senso apreciam valores como criação de uma descendência, união estável do casal, transmissão de valores de honra e de ética, amor, respeito pelos ancestrais, alcançar a excelência e a qualidade de vida são valores humanos e de tendências universais - presentes em muitos Vamps que por sinal são pais, mães ou provedores do lar.Isso sem mencionar um número ainda maior deles que almejam tais elaborações em suas vidas tanto na vertente fashionista quanto na da cosmovisão.Isto não é uma regra a "solteirice" também é valorizada em nosso meio-social.Enfim, almejar o amor, a excelência na vida, a liberdade de viver como sente que tem que viver e sua continuídade seja ela como for - é um valor inerentemente "Vamp".

No ano de 2009 durante uma entrevista realizada pela Rosana Raven Ravena para o fanzine "Flores do Lado de Cima" fui inquirido sobre a questão do preconceito e repreensão social:

"(...)Particularmente, tive uma história engraçada que aconteceu em 2004 quando voltava para casa a tarde - estava sem visual "vamp" inclusive. Um grupo de 16 pessoas de uma fervorosa igreja da minha região, me cercou em frente da minha casa. E começaram a rezar por minha alma...Eu agradecí educadamente, dizendo um obrigado e que todas bençãos retornem a vocês também.Comigo mesmo, achei estranha, teatralizada e "gritada" demais demonstração de fé daqueles caras.Mas penso a Terra é bem grande para comportar muitos Deuses e Deusas, seus cultos e nenhum deles é melhor do que o de outro povo, tem espaço para todo mundo.Só que o teatro deles não parou e continuou assumindo um tom apoteótico...
O líder do grupo discursou histéricamente que eu estava possuído por Lúcifer, Satã e o demônio em pessoa.Esperei ele terminar o show e lhe disse, que isso era improvável, pois eu era pagão e não acreditava que os símbolos ditos por ele representassem algo importante ou relevante para mim.
O lider do grupo ficou ainda mais possesso e seus seguidores começaram um coral desafinado de preces, apêlos e gritos aos céus...Com direito a estenderem os braços e gritarem ainda mais alto...Bom, como eu sou da Terra mesmo, caminhei até a frente do líder do grupo, olhei firmemente em seus olhos e disse: Se eu tô possuído, faz teu sinal da cruz...Se eu desaparecer, tá beleza! Se eu continuar aqui...Ele recuou amedrontado, pararam com o com a apoteóse na mesma hora e ele partiu "cabisbaixo" junto com seus seguidores - por sinal, bem desmoralizados.Eu gargalhei da cena e entrei em casa. Histeria coletiva na frente da casa dos outros não é religião de nenhum tipo é só baderna de rua. Depois disso nunca mais tive problema algum com eles.(...)" 


Compartilhei com vocês uma situação pessoal onde confrontei o preconceito e a repreensão social de forma altiva e galante.Eu defendo um posicionamento pagão e politeísta, o qual considero muito mais justo e expontâneo para lidar com a diversidade, amplitude, a singularidade e a vastidão do ecossistema e dos seus habitantes.Sem dúvida uma proposta com alguns milênios de existência e de vivência superiores ao do judáico-cristianismo e que vem a constituir o pílar ou tom básal na qual foi erígida a civilização ocidental, seu direito, sua arte, sua lógica, sua ciência, música, filosofia e muitos outros elementos constituintes até os dias de hoje.O mesmo Paganismo cujo os feitos e realizações inspirou épocas como o Renascimento e tantas outras conquistas relevantes da nossa civilização e para onde invariavelmente nos voltamos quando contemplamos a vida em extensão.O que não demanda fé cega, intolerância, guerra religiosa, desrespeito e castração feminina e que sugere a admiração a aquilo que não podemos compreender.E também cultiva o púdor e a sensatez ao invés da culpa e do ressentimento generalizado.
No campo pessoal enxergo "Vamp" é um símbolo recorrente do paganismo, aparentemente resgatado da imagética das pinturas e dos murais renascentistas dos heróis andróginos, em busca da aventura e da ampliação dos limites do culturalmente conhecido de sua época.Na antiguidade encarnavam os valores transculturais e a convivência da amplitude e diversidade de uma idade alexandrina.E nos tempos contemporâneos vejo que a busca da aventura se dá nos campos noturnos ou dos mortos-vivos, adjetivos para o que o senso comum denomina como vida interior, como inconsciente, como tabú, como entusiasmo ou melancolia e a exploração heróica de tais elementos como uma celebração do "viver" e do conquistar a totalidade de sí instante a instante - e por consequência uma vida mais coerente com aquilo que almeja, pensa, realiza e torna mais aprazível a vida a sua volta - convivendo e compartilhando ela com iguais e semelhantes.Valores nobres, inspiradores e indomáveis - que foram aparentemente sublimados da moral datada por escusos interesses castratórios do poder dominante...

*Nota do autor: - A temática Pagã delineada nos dois últimos parágrafos foram ampliadas com um tom  mais brando e elucidativo neste texto: "Vamps vêem o Paganismo" , entretanto há uma postagem de alguns meses atrás (2011) onde contextualizo "Paganismo, Política e Atitude perante o malfadado projeto de Belo Monte e da reforma do código floresta".

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